Discurso de ódio: pessoas desaparecidas e familiares sofrem ataques na internet após resolução do caso
Comentários nas redes causam desgaste emocional às famílias

Ofensas, ataques e acusações. Essa é a rotineira recepção nos comentários das redes sociais para as pessoas desaparecidas, sempre após a resolução do caso. Sem distinguir se é uma criança, um adolescente ou um adulto, o público se apresenta de forma reativa, gerando diversos transtornos psicológicos à família e ao sujeito envolvido. Além do desgaste em relação ao desaparecimento, em muitas oportunidades, esses familiares têm que lidar ainda com o ‘ódio gratuito’ praticado na web.
Neste sentido, se evidencia frequentemente uma solidariedade do público geral com a pessoa desaparecida. A partir disso, quando a história apresenta uma definição, os comentários nas redes sociais tomam um ‘partido’. Quando é encontrado apenas o corpo, confirmando a morte da pessoa que sumiu, as condolências dos internautas permanecem. No entanto, quando a pessoa aparece viva e volta para casa, uma "chuva" de ataques e acusações são recebidos pelo envolvido e por sua família.

"Tava na safadeza.", "Vamos ver depois de 9 meses." e "Foi curtir um baile na VJ e não conseguiu voltar... Quem sofre são os pais, infelizmente." são alguns dos comentários emitidos sobre o desaparecimento de uma menina, por exemplo.

Uma das vítimas recentes destes ataques cibernéticos contou como foi triste ler tantas calúnias.
"No nosso Brasil nós temos pessoas boas e ruins, as pessoas boas é que estão prontas para nos ajudar, e as pessoas ruins só para criticar e falar palavras agressivas, palavras ruins, para poder desmoralizar uma família. Eu venho falar sobre respeito, de pessoas que estão agredindo minha família com palavras que estão machucando a gente... Então, peço a essas pessoas que estão agredindo minha família pelas redes sociais, por favor, não faça isso! Peço claramente a todos que tenham um pouco de compaixão e pensem...”, comentou um pai, dizendo o que muitas famílias gostariam de dizer nessa situação. Mais amor e tolerância são as pedidas do momento.

De acordo com o psicólogo Diogo Bonioli, esse comportamento dos usuários está atrelado aos rótulos estabelecidos como fúteis na sociedade.
“Quando o caso termina em morte, parece um reforço pelo investimento emocional dado ao caso, mas o problema de ser encontrado com vida é ser associado a motivos rotulados como fúteis.”
Ele ainda cita os principais:
“O fracasso do investimento narcísico: depois de se identificar com a dor de alguém por entender que poderia passar pelos mesmos sofrimentos, a pessoa tende a agredir qualquer atitude do desaparecido interpretada fútil como forma de vingança narcísica pelo sofrimento que a fez sofrer."
“A cura da mágoa: manejar as emoções e os sentimentos não são tarefas simples. A comoção pelo desaparecimento de um familiar causa um rearranjo para quem se identifica com o fato. Quando a decepção de encontrar um motivo fútil ocorre, a forma mais simples de remanejar a mágoa de quem despertou o sobressalto sentimental é a raiva ou a agressão, tal como nos relacionamentos amorosos. A raiva é a forma mais arcaica e rápida de superar uma mágoa”, explica Diogo.
O especialista ressalta que existe uma tendência para a reprodução desses comentários, que está diretamente ligada a um comportamento reativo da sociedade e ainda explica que a agressividade aparece como um escape e uma forma mais fácil de lidar com o ocorrido.
“A tendência reativa aos casos de frustração causada por aparente motivo fútil do desaparecimento é um retorno a agressividade primitiva que toda humanidade precisou abrir mão para que fosse criada a civilização. A agressividade é uma tentativa de proteger a vida da própria pessoa, que ao se ver ameaçada de ser uma desaparecida ou ter um ente querido desaparecido desperta em si a identificação. Nesse sentido, a agressividade é construtiva na medida do compartilhamento da informação e nas ações solidárias, no entanto, quando se comunica que o motivo foi individual, isso ofende o senso de responsabilidade que é a base de uma relação de família. Ora, como forma de agredir a falta de responsabilidade daquele que fez uso da futilidade, imputasse um sentimento de culpa, por estar mais próxima a vingança, a fim de que sintam-se reparados pelo investimento emocional e para que reclame o papel da reponsabilidade, isto é, uma forma agressiva e primitiva de solicitar nova forma de resposta daquele que emitiu o comportamento inaceitável”, conclui o psicólogo.
*Estagiário sob supervisão de Marcela Freitas