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Os desafios de ser mãe durante a pandemia de coronavírus e o ensino remoto

Mães contam ao OSG como a pandemia afetou as relações com os filhos e suas responsabilidades

relogio min de leitura | Redação 09 de maio de 2021 - 08:55
Carla, o esposo Anselmo, os dois filhos Caio e Davi, e a enteada
Carla, o esposo Anselmo, os dois filhos Caio e Davi, e a enteada -

A pandemia do novo coronavírus completou um ano recentemente. Com ela, as restrições e medidas de isolamento que achávamos que durariam apenas 15 dias se prolongam até hoje. Datas comemorativas e feriados passaram a ser comemorados em casa. O Dia das Mães deste ano será o segundo em tempos de Covid-19. Muitas mães viram o desafio da maternidade ser dobrado durante esta crise sanitária, que é a maior do século XXI.

Mães de primeira ou segunda viagem, grávidas, gestantes, mães de adolescentes, todas elas tiveram que mudar as rotinas e se adaptarem às novas medidas de proteção, lidar com o ensino remoto dos filhos, bem como as crianças passando o dia inteiro em casa, além do home office ou o trabalho presencial que, em alguns casos, não cessou desde o início dos primeiros casos no Brasil.

Além dos desafios da nova rotina, surgiram os problemas econômicos, que vieram junto com a pandemia. Com a taxa de desemprego chegando aos 15% e 11 milhões de famílias sendo chefiadas por mulheres, grande parte das responsabilidades financeiras da casa caíram diretamente nas mãos das mães trabalhadoras. Para todas, ser mãe no período de pandemia se resume em uma sensação: estar constantemente sobrecarregada. 

Mãe de dois filhos, um de 9 e outro de 2, a perfumista Carla Generoso, de 37 anos, não esconde o amor pelas suas crianças, mas abre o jogo sobre a rotina durante a pandemia. "Não aguento mais", diz. Por conta da pandemia e o ensino remoto, Carla precisa se dividir entre diferentes papéis em apenas um dia, e mesmo assim é uma luta para conseguir cumprir com todos os deveres, tendo que às vezes recorrer à ajuda de parentes para que o filho mais velho consiga cumprir com as atividades escolares. De acordo com ela, o comportamento do filho mudou drasticamente durante a pandemia.

"Ele gostava de ir para à escola, de fazer as coisas dele, mas agora ele fica trancado dentro de casa, porque a gente não sai, não vai para festas. Ele no máximo vai no futebol nas quartas e sextas, mas ele fica muito agitado, porque fica preso e quer sair, rói as unhas. Tirei ele do ensino híbrido da escola porque não consigo colocar ele para fazer os deveres. O tempo que eu tenho, tenho que ficar olhando ele, olhando o pequeno, e é uma confusão danada. Pedi ajuda a uma colega para ver se ela consegue fazer com que ele faça os exercícios, mas ele mesmo já se entregou, não aguenta mais, todo dia ele me pergunta quando essa pandemia vai acabar.", disse Carla. 

A rotina atarefada da mãe também ocasionou a saída do filho do ensino híbrido. Com o horário das aulas reduzido, surgiram problemas em relação ao dilema de quem levaria ou buscaria o menino na escola. "Não tinha como eu levar [na escola], se eu levasse, não tinha ninguém para buscar ou contrário. Ele agora estuda de 13h30 às 15h30, mas eu e meu esposo trabalhamos na parte da tarde. Minha sogra que fica com eles, se ela levar o maior na escola quem fica com o menor? Então optei por deixar ele em casa e tentar fazer com que ele faça as atividades, mas não estou tendo muito sucesso nisso não.", completou. 

Com o marido desempregado, recorrendo a trabalhos temporários, Carla carrega a responsabilidade de ter a única renda fixa da casa "Se eu não for trabalhar, não tem comida. Tem dias que eu acho que vou surtar, não quero voltar para casa, quero dormir um pouquinho. Porque saio cedo para trabalhar e eles estão dormindo, quando chego eles querem atenção. Aí você chega cansada, estressada, porque trabalhar com público é difícil. Eu digo que meus filhos tão ficando sem paciência, mas acho que sou eu que estou mais", confessou.

Vendo a ansiedade dos filhos crescer, como mãe, restou a Carla alimentar as esperanças dos filhos de que dias melhores virão com a chegada da vacina e a possibilidade dele voltar à vida de antes, revendo os amigos da escola e voltando a sair com os pais.

Assim como Carla, Talita Pina também trabalha em uma farmácia, além de ser a fonte de renda principal da casa. Mãe solteira, Talita compartilha do mesmo sentimento que Carla, a sensação de que tem um novo filho por conta da pandemia. 

"Ele agora só quer saber de brincar, brincar e brincar. Não consigo mais controlar ele para que ele faça as atividades. No começo era pior, agora ele está começando a querer aprender as coisas de novo, então vou ensinando para ele, os números, as letras e tudo mais, mas tá sendo muito difícil", confessou a atendente de 27 anos. 

Morando apenas com o filho e a mãe, Talita também carrega a responsabilidade de ter a renda fixa da família. A mãe é diarista e não tem conseguido muitos serviços durante a pandemia. "Tem vezes que ela trabalha só três vezes no mês. Ela pode ir hoje e depois só em duas semanas, se chamarem ela. Aí ficou muito sobrecarregado para mim, tudo sou eu agora lá dentro de casa.", contou.

Carla e Talita são apenas dois exemplos de mães que já viviam uma rotina atarefada antes da pandemia, mas viram suas vidas e seus relacionamentos familiares virarem de ponta cabeça por conta da nova rotina causada pela Covid-19. Para Talita só resta torcer para que a campanha de vacinação tenha seu ritmo acelerado para curtir a vida novamente. "Lá em casa a gente tem que ter todo o cuidado, porque minha mãe não tomou a vacina ainda, aí tem que ter restringir por causa dela e do meu filho, ainda mais trabalhando em uma farmácia o cuidado tem que ser dobrado. Mal vejo a hora de voltar tudo ao normal, a sensação de liberdade, de falar com as pessoas sem ter medo, não usar mais máscara.", concluiu.

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