Bolsonaro tentou alterar bula da cloroquina por decreto, afirma Mandetta

Ex-ministro da saúde prestou depoimento à CPI da Covid-19

Escrito por Redação 04/05/2021 15:13, atualizado em 04/05/2021 16:04
Mandetta disse que sempre seguiu determinações da OMS
Mandetta disse que sempre seguiu determinações da OMS . Foto: Divulgação

O ex-ministro da saúde Luiz Henrique Madetta disse, durante reunião da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid- 19, realizada nesta terça-feira (04), que o presidente Jair Bolsonaro tentou alterar a bula da cloroquina através de decreto presidencial.

De acordo com Mandetta, Bolsonaro queria obrigar a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a fazer a alteração na bula para fazer com que o medicamento fosse indicado para o tratamento do coronavírus, apesar dos estudos científicos que mostram sua ineficácia contra a Covid-19.

“Eu estive dentro do Palácio do Planalto quando fui informado, após uma reunião, que era para eu subir para o terceiro andar porque tinha lá uma reunião com vários ministros e médicos que iam propor esse negócio de cloroquina, que eu nunca tinha conhecido. Quer dizer, ele tinha esse assessoramento paralelo", disse Mandetta.

Ainda segundo Mandetta, que estava na condição de testemunha, onde é obrigado a falar a verdade sobre os fatos ao qual é questionado, o pedido para alteração na bula teria sido negado diretamente pelo próprio presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres. 

"Nesse dia, havia sobre a mesa, por exemplo, um papel não timbrado de um decreto presidencial para que fosse sugerido daquela reunião que se mudasse a bula da cloroquina na Anvisa, colocando na bula a indicação da cloroquina para coronavírus. E foi inclusive o próprio presidente da Anvisa, [Antônio] Barra Torres que disse não", afirmou.

O ex-ministro também disse, em seu depoimento, que acredita que o presidente Jair Bolsonaro se consultava com outras fontes de informação, além das fontes do Ministério da Saúde. Ele cita o caso da cloroquina, que ainda é defendida por Bolsonaro, mesmo sem comprovação científica de eficácia e sem nunca ter sido recomendada pelo Ministério da Saúde.

“Me lembro do presidente sempre questionar a questão ligada a cloroquina como a válvula de tratamento precoce, embora sem evidência científica. Eu me lembro do presidente algumas vezes falar que ele adotaria o chamado confinamento vertical, que era também algo que a gente não recomendava", disse.

Luiz Henrique Mandetta falou que sua gestão à frente da pasta sempre seguiu a "cartilha da Organização Mundial da Saúde", e caso houvesse acreditado em teorias de que o vírus não chegaria ao Brasil e não tomasse rápidas providências, haverá uma "carnificina". 

"[...] do Ministério da Saúde nunca houve a recomendação de coisas que não fossem da cartilha da Organização Mundial de Saúde, dessas estruturas todas, era o que a gente tinha, não por sermos donos da verdade, não, pelo contrário, nós éramos donos da dúvida, eu torcia muito para aquelas teorias de que ‘ah, o vírus não vai chegar no Brasil’, agora, se eu adotasse aquela teoria e chegasse, teria sido uma carnificina”, afirmou.

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