Em busca da identidade
Projeto de lei quer facilitar trâmites para mudança de nome e gênero de transexuais

Proposta 5002/2013, que tramita na Câmara dos Deputados, leva o nome de João Nery
Foto: DivulgaçãoUm projeto de lei (5002/2013) de autoria dos deputados federais Jean Wyllys (PSOL-RJ) e Érika Kokay (PT-DF), baseada na legislação argentina, determina que o reconhecimento da identidade de gênero é um direito do cidadão e facilita os trâmites para mudança de nome e gênero. O projeto de lei recebeu o nome do morador de Niterói, João Nery, de 65 anos, que nasceu em um corpo feminino, mas sempre se identificou como homem. Ele é o primeiro transhomem a ser operado no Brasil e lutou, desde a infância, na busca da identidade masculina.
Pelo projeto, que tramita na Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, transexuais poderiam alterar a documentação no cartório – sem precisar de cirurgia, tratamento hormonal ou laudo psiquiátrico. Atualmente, eles precisam recorrer à Justiça para efetuar a mudança de nome e gênero. Para João, com a atual composição do legislativo e a resistência da bancada evangélica, o projeto dificilmente será aprovado. “Ser o que não é, fingir o tempo todo, é enlouquecedor”, destaca.
História – Em uma época em que não se falava em transexualidade, João Nery ousou ao firmar uma trajetória de busca e construção da própria identidade.
Ainda como mulher, ele se formou em psicologia, começou a fazer mestrado e deu aulas em três faculdades no Rio de Janeiro. “Eu era uma figura ambígua. Com 22 anos, eu já vivia duas vidas socialmente antagônicas. Eu era mulher para os conhecidos. E era visto como uma figura masculina para os desconhecidos. Fui morar com a minha namorada e, no prédio, era visto como o marido dela. Era uma loucura. Eu nunca sabia se iam me chamar de senhor ou de senhora”, conta.