Ajudante de pedreiro aguarda na fila da rede pública há quatro anos para conseguir tratar câncer
"Tenho a sensação de que vou morrer em casa", desabafa morador de Itaboraí

"Eu não quero perder meu primo e se não corrermos atrás agora, vamos correr quando? O que queremos é o início de um tratamento que um ser humano merece". A frase foi dita pela dona de casa Patrícia Gomes, de 48 anos, que vem acompanhando de perto todo o sofrimento do primo, Josué de Araújo, de 58 anos, diagnosticado com câncer no reto há cerca de quatro anos.
A doença de Josué evolui constantemente e hoje ele não consegue nem ficar sentado por conta da dor que sente no reto, precisa de uma bolsa de colostomia para eliminar suas fezes do corpo e sofre constantes desmaios. Mesmo com o diagnóstico de câncer, ele ainda não foi encaminhado para exame e segue na fila para internação e para conseguir um encaminhamento para a quimioterapia.
No início do problema, há mais de cinco anos, Josué achava que tudo não passava de uma hemorroida, que desapareceria em alguns dias. "Inicialmente, o médico disse que poderia ser isso. Ele me passou uma pomada, mas não melhorava. Depois, foi começando a aparecer outras coisas como um sangue ralo quando eu ia ao banheiro, depois uma secreção e quando passava a pomada, sentia um nódulo do tamanho de um grão de arroz. Em 2017, fui diagnosticado com o câncer e me passaram remédio para dor e pomada para que eu tratasse. Não me encaminharam ainda para um quimioterapia, nem para cirurgia. Na época, achei que me mandariam para casa, mas chamariam para a cirurgia logo. Mas isso não ocorreu até hoje e a situação tem piorado, já que eu agora tenho fraqueza e desmaio de dor. Outro dia ao passar pela cozinha, desmaiei e bati a cabeça no fogão. Hoje, só consigo dormir de lado e sinto dor o tempo todo", contou o autônomo que trabalha como pintor e ajudante de pedreiro.
Ele começou a recorrer a hospitais no início deste ano para tentar algum tipo de internação e tratamento. Ao ir até o Centro de Especialidades de Saúde de Itaboraí (CESI), de Itaboraí, Josué afirma que conseguiu uma guia de internação, que foi encaminhada para a Secretária de Saúde do município ainda em março, mas, até agora não obteve resposta.
A situação chegou ao ponto de Josué sofrer com completa obstrução, quando não conseguia eliminar as fezes. "O médico do Pronto Socorro de São Gonçalo (PSSC) viu que o caso do meu primo se tratava de uma emergência e deu entrada na cirurgia de colostomia para colocar uma bolsa ligada ao corpo dele, em que ele conseguisse fazer suas necessidades", disse Patrícia.
No último fim de semana, a família entrou em desespero por conta do aumento das dores, e resolveu procurar ajuda em outros hospitais.
"A gente deseja o encaminhamento para um hospital maior que lide com isso, por exemplo, o Antônio Pedro, que só atende após pedido médico. Já fomos até ao PAM do Coelho e os médicos informaram que o caso dele é grave, mas nada adiantou. Hoje, com o coronavírus, todo o restante está parado. Só que, com isso, o tumor do meu primo vem crescendo e já fomos em médicos particulares e, infelizmente, não temos condições de pagar um procedimento particular. Ele ainda nem fez uma biópsia para saber qual o tipo de câncer, como tratar, se é benigno ou maligno e nem nada que o encaminhe para uma quimioterapia", acrescentou a prima de Josué.
O ajudante de pedreiro mora com a mãe de 80 anos e a ajuda com as contas de casa. No entanto, desde que o câncer vem se alastrando, sua mobilidade tem sido afetada, por isso, está sem trabalhar. Até o momento, a família solicitou o auxílio-doença do INSS e aguarda o exame de perícia para saber se Josué conseguirá ou não o benefício.
"Eu tenho a sensação de que vou morrer em casa. O médico mesmo já disse que pomada não adianta mais no meu caso. Queremos o início do tratamento, queremos o encaminhamento de um médico para o INCA (Instituto Nacional de Câncer) ou para uma internação, para uma cirurgia", reforçou Josué.
De acordo com os últimos exames, o tumor, que começou do tamanho de um grão de arroz, hoje está com 8 centímetros e pode crescer mais.
Procurada, a Prefeitura Municipal de São Gonçalo informou que "o Pronto Socorro de São Gonçalo (PSSG) só atende emergências e o tratamento do paciente deve ser feito em uma unidade de saúde referenciada para câncer, de alta complexidade. O caminho indicado em unidades de saúde de São Gonçalo é que o paciente oncológico vá a qualquer unidade de saúde da atenção básica para ser encaminhado para a unidade de referência através da regulação, o que já foi feito pelo paciente, que foi inserido no Sistema de Regulação do Estado (SISREG), que é de responsabilidade do Governo do Estado".
Em nota, a Secretaria de Estado de Saúde do RJ afirmou que "a direção do Hospital Estadual Alberto Torres (HEAT) informa que a unidade realiza atendimento de urgência e emergência de média e alta complexidade e não possui serviços de oncologia. O paciente esteve no hospital onde relatou queixas em decorrência de uma intervenção cirúrgica realizada no Hospital Municipal de São Gonçalo. Ele foi atendido na classificação de risco e, por estar estável, foi encaminhado para a unidade que realizou o procedimento.
A Central Estadual de Regulação (CER) esclarece que não há solicitação no Sistema de Regulação para o paciente."
A Prefeitura Municipal de Itaboraí informou que "a Secretaria Municipal de Saúde acolheu o paciente pela central de regulação do município na última quinta-feira (29/04) e na próxima segunda-feira será submetido ao exame de colostomia para avaliar a gravidade da doença. Dependendo do resultado, o paciente será encaminhado para o serviço de oncologia ou para realizar cirurgia no Hospital Municipal Desembargador Leal Junior."