Empreendedora gonçalense faz sucesso com marca de moda black
Cristina Dias criou o "Eu Vistto Preto" e expressa a luta antirracista nos produtos estampados

"As estampas não são apenas estampas, elas são gritos estampados. São da minha vivência de mulher preta neste país". É dessa forma que a empreendedora gonçalense Cristina Dias, de 36 anos, expressa a luta antirracista tão necessária. Para ampliar a conscientização das pessoas, Cristina criou o "Eu Vistto Preto" e passou a vender estampas pelo Instagram e por pontos em São Gonçalo. Contudo, antes da loja, sua caminhada não foi nada fácil.
Cristina é formada em gestão de RH e pós graduada em Gestão Corporativa e Pedagogia Empresarial. No entanto, em 2019, ela foi desligada de uma empresa onde, segundo a empreendedora, ela estava cotada para um cargo mais alto.
"Todas as pessoas da empresa me diziam que eu seria a próxima coordenadora. Eu já tinha desenvolvido vários trabalhos e depois, fui surpreendida com uma demissão inesperada", relatou. Cristina conta também que seu chefe a despediu devido às diretrizes da empresa.
"Eu falei para ele: "Não são diretrizes da empresa, porque pediram meu nome, não o meu cargo" e depois disso, fui para casa chateada, porque sabia o quanto tinha entregado naquele trabalho", disse. "Mas eu sei que eu fui demitida porque ele ficou com medo de perder a vaga para mim. Um homem sexista não admitia que uma supervisora tivesse competência", alegou.
Alguns meses após o episódio, Cristina passou a trabalhar numa outra empresa. Porém, devido à pandemia da covid-19, todos os coordenadores do local foram desligados. "Fiquei muito triste porque mais uma vez eu me via no mercado de trabalho sabendo da minha competência".
No auge das manifestações do Black Lives Matter, em 2020, Cristina relata que seu ex-chefe fez uma publicação no Linkedin sobre o assunto. "Ele dizia como era absurdo apenas 4% das mulheres pretas estarem em cargo de gestão", contou. É a partir daí que surge o "Eu Vistto Preto".
"Eu fiquei indignada com o post. Precisava extravasar a minha ira. Eu fiz um desabafo no Linkedin falando dessa hipocrisia, e depois desse desabafo, peguei um aplicativo no celular e criei um design de uma frase. Meu marido olhou e disse que ficaria perfeito em uma camisa", disse Cristina.
Após o conselho do marido, Cristina passou a criar vários designs e estampas, enviando para amigos avaliarem. Foi um sucesso: no primeiro mês, ela vendeu 37 estampas entre os amigos. "Meus amigos compraram as camisas porque sabiam da minha índole. Sabiam que eu sempre lutei pela causa preta e sempre falei da dificuldade de uma mulher preta estar no mercado de trabalho e ser respeitada pela sua competência", afirmou.

A empreendedora ressalta que no "Eu Vistto Preto" não há apenas vendas de "t-shirts", mas sim, gritos estampados. Tendo isso em vista, ela explica os objetivos que pretende seguir com a loja. "Ampliar a consciência de quem vê as estampas, inspirar quem veste e gerar oportunidades de trabalho para o povo preto", relatou.
"Todos os dias a sociedade fala para nós, homens e mulheres pretas, que nós não temos importância, que nosso cabelo é feio, que nossos traços não são aceitáveis. Todo o tempo nós somos empurrados para baixo sem podermos mostrar nossa potência. Quero relembrar que temos sim nossa importância, nosso valor, nossa história", disse.
Cristina afirma que o "Eu Vistto Preto" é uma marca de moda black, mas também são para todas as cores que entenderam a necessidade de exercer o antirracismo. "A gente precisa que as pessoas pratiquem o antirracismo. Comprar de um empreendedor preto é praticar o antirracismo", afirmou.
No passado, as entregas das camisas eram realizadas no Prédio do Relógio, em Alcântara, ou no Partage Shopping, no centro de São Gonçalo. Entretanto, após muitos pedidos por um ponto de vendas específico, Cristina fez uma parceria com outra loja e construiu um ponto do "Eu Vistto Preto" no calçadão de Alcântara. Agora, ela sonha com um local próprio, buscando dar as oportunidades de trabalho que deseja.

"Sou eu que faço tudo na loja. Uma "eupreendedora"", brincou. "Sou nascida e criada em São Gonçalo e quero as pessoas dessa cidade valorizadas, sem medo de dar entrevistas devido à sua aparência para conseguir uma vaga", acrescentou.
Cristina conta ainda sobre outro projeto que apoia a causa social, o "Aquilombei". "Por conta das questões da covid, existem muitos empreendedores pretos com dificuldades de vender e divulgar os produtos. Por isso criei uma página no Instagram onde fortaleço esses trabalhos, e quem quiser contribuir para um empreendedor preto e a luta antirracista, é só ir no "Aquilombei"", explicou. A ação divulga os negócios de empreendedores de São Gonçalo e de cidades mais próximas, como Itaboraí.
O ponto de venda da "Eu Vistto Preto" fica na Rua Yolanda Saad Abusaid, 100A - loja 203. Para saber mais sobre a loja ou sobre o projeto "Aquilombei", basta acessar as páginas no Instagram: @euvisttopreto e @aquilombei.
Estagiário sob supervisão de Cyntia Fonseca*