Final feliz: mãe e filho contam como a vida mudou desde que ela o entregou à polícia há cinco anos
Hoje, ele usa a própria experiência e suas músicas para alertar outros jovens sobre a vida criminosa

Desesperada com o rumo da vida de seu filho caçula, na época com 15 anos, uma mãe, moradora do Barreto, em Niterói, tomou uma decisão drástica, a última opção que restou após inúmeras tentativas de conversas, castigos, choros e discussões. Doendo no filho, mas principalmente nela, Claudemira Santos decidiu, no dia 15 de abril de 2016, entregar o próprio filho à polícia após tentar tudo que estava em seu alcance. Exatos cinco anos após a prisão, mãe e filho contam a O SÃO GONÇALO o que mudou após o ato de amor de uma mãe aflita que assistia o filho optar pela vida criminosa.
"Eu não me arrependo de nada. Se eu pudesse voltar no tempo, eu faria a mesma coisa que eu fiz cinco anos atrás, mesmo depois de toda a humilhação que passei. Qualquer mãe que ama o filho, ama o próximo primeiro", garantiu Claudemira. Após a denúncia, a cozinheira conta que, na época, passou por algumas humilhações por conta do filho, desde ser hostilizada por outras mães que não concordaram com sua atitude a ter que passar por revista íntima ao visitar o filho nos centros de detenção.
Matheus Santos foi preso aos 15 anos de idade após assaltar uma loja de roupas em São Gonçalo. Os proprietários da loja o reconheceram e chamaram os pais do então adolescente para um acordo. No dia do acordo, a mãe já incentivou os donos do estabelecimento a denunciá-lo. Depois de outro assalto acontecer no local, mas desta vez sem o envolvimento do jovem, os proprietários o denunciaram também pelo primeiro crime, que foi quando Matheus passou a ser procurado. Procurando refúgio na casa da mãe, Claudemira aproveitou um dia da visita do filho e o entregou à polícia, dizendo que, se ele agia como adulto na rua deveria arcar com as consequências como tal. “Se for para eu vê-lo acabar com a vida de alguém, eu prefiro que seja a dele”, justificou.
Matheus, hoje com 20 anos, passou por diferentes centros de detenção juvenil, como o Dom Bosco, na Ilha do Governador, e o CAI da Baixada, em Belford Roxo, onde dormiu no chão, se alimentou com comida azeda e passou por outras dificuldades. Após passar por tudo isso, além de ser internado em um centro de reabilitação, o jovem decidiu trilhar pelo caminho que sua mãe sempre desejou.
“No início fiquei irritado, né? Com 15 anos ver minha própria mãe me entregando para a polícia, mas hoje eu entendo que ela fez para o meu bem. Foi uma etapa que eu sofri muito, então, pra mim, é o que eu prego para todo mundo: o crime não compensa, não é vida realmente. Eu posso passar a necessidade que for, mas eu não procuro e não aconselho a procurar, assim como as drogas também", afirmou Matheus.
Além da mãe, Matheus encontrou forças na música para poder dar a volta por cima e ainda deixar uma mensagem para aqueles que pensam em seguir o caminho do tráfico e dos crimes. O jovem que antigamente sonhava em ser gerente do tráfico, sonha hoje com uma carreira musical que possa servir de inspiração para outros meninos como ele.
Usando a própria experiência como inspiração, Matheus (@blnavozofc) compôs as músicas "O Crime não é vida" e a "Tô de pião". A primeira contando sobre a antiga vida de criminoso até que foi 'resgatado' pela própria mãe. A segunda, mais lúdica, projeta o sonho do jovem de emplacar na indústria musical.
Apesar de novo na indústria, Matheus já conta com o apoio significativo de nomes importantes do cenário musical, como o DJ Lindão (@djlindaooficial) e outros produtores de São Paulo que o convidaram para gravar um clipe de sua segunda música. Entre os produtores está o Rick Joe (@rickjoeoficial), responsável por hits de Anitta e Ludmilla. O jovem já terminou a produção da música com o DJ Lindão e, em breve, se encontrará com o produtor para gravar o clipe.
"O que está acontecendo comigo é bom demais e espero usar tudo isso, o meu exemplo e minha voz, para ajudar outros jovens que nem eu para que percebam que o crime não é vida, assim como já ajudei vários outros aqui na comunidade onde moro", concluiu.