No Dia da Mulher, gonçalenses falam sobre empoderamento: Lugar de mulher é onde ela quiser!

Mulheres compartilham suas histórias de empoderamento em diversas profissões

Escrito por Ana Carolina Moraes 07/03/2021 07:24, atualizado em 08/03/2021 07:00
Bianca é motorista há 4 anos
Bianca é motorista há 4 anos . Foto: Filipe Aguiar

O feminismo é um dos movimentos sociais que mais vem crescendo no mundo e na internet. Diferente do que muita gente acredita, o feminismo busca a igualdade e a equidade dos gêneros, seja no mercado profissional ou em qualquer outro assunto. É aquela famosa frase: "se o homem pode fazer, a mulher também pode". Por isso, no Dia Internacional da Mulher, que é comemorado nesta segunda-feira (08), o jornal O SÃO GONÇALO resolveu trazer histórias de mulheres que estão em profissões nas quais as pessoas acreditam ser majoritariamente masculinas, como motorista de ônibus e mecânica, skatista, tatuadora, vereadora e treinadora de futebol. 

Durante a história, as mulheres lutaram muito para conseguir ter o mesmo direito que os homens. No início, por exemplo, não era permitido que a mulher votasse, também não era permitido que ela saísse de casa para trabalhar e deixasse seus filhos com outras pessoas, assim como não era permitido que as mulheres usassem calças, por exemplo. Mas, com o tempo, tudo mudou e, a partir do ano de 1909 passou a ser celebrado o Dia Internacional da Mulher. Após alguns anos, o mundo todo adotou essa celebração para mostrar a força feminina e debater mais sobre a igualdade de gêneros. Hoje, mulheres e homens dividem o mercado de trabalho nos mais diversos setores.

Motorista de ônibus

Bianca dos Santos Benta, de 34 anos, trabalha há cerca de seis anos na empresa de ônibus Rio Ita. No início, ela era manobrista na garagem da companhia, mas, há cerca de 4 anos ela se tornou motorista. Além de ser mulher e motorista, Bianca é negra e, desde nova, sempre lutou por seus sonhos. Ela, que começou a trabalhar com 11 anos no trailer de lanches de sua família, tinha o sonho de ser mecânica e piloto da Aeronáutica. Hoje, ela não se vê de outra forma se não dirigindo, já que, segundo a mesma, é o que ela ama fazer.

"Desde criança, eu e meu irmão brincávamos de mecânica em casa e eu falava que seria mecânica. Fiz um curso e comecei a trabalhar numa oficina quando já era maior. Passava metade do tempo no trailer de lanche dos meus pais, onde trabalhava desde os 11 anos, e o resto do tempo eu ficava na oficina, debaixo dos carros, consertando e lidando com eles. Eu já era muito julgada na oficina, pois as pessoas sempre olhavam para o fato de eu ser mulher, e não percebiam o meu trabalho, que era o meu conteúdo, eu era como um livro, sendo julgada pela capa", contou ela. 

Até que, depois de anos na oficina, Bianca teve que sair, pois deu prioridade ao trailer de sua família. Depois de algum tempo em outras profissões, Bianca se encontrou como motorista de ônibus. 

"Eu cheguei a procurar outras empresas de ônibus para trabalhar, mas quando viam que eu era mulher, eles literalmente não deixavam eu entrar nem para fazer um teste. Aqui na Rio Ita, eu já tinha meu irmão, que trabalhava aqui, então, ele me indicou e eu consegui a vaga depois dos testes. No início, eu era manobrista, mas depois me tornei motorista. Claro que ainda sinto na pele o preconceito dos passageiros por eu ser uma mulher motorista e negra, alguns fazem sinal nos pontos de ônibus e quando eu paro e eles me veem pilotando, eles desistem de entrar, mas quando alguns entram e veem como eu sou profissional, eles logo deixam de lado esse preconceito. Mas, eu não esquento a cabeça, não sou de julgar, pois o que eles pensam de mim hoje, pode mudar amanhã", contou ela. 

Bianca já foi discriminada em sua profissão por ser mulher
Bianca já foi discriminada em sua profissão por ser mulher | Foto: Filipe Aguiar
 

Bianca ainda deixou um conselho para aquelas que querem seguir uma profissão que as pessoas acreditam ser masculina. "Eu lembro da minha professora falando que existem três 'F': fé, foco e força. Você consegue tudo sem prejudicar ninguém. Graças a Deus, eu sempre tive o apoio da minha família e amigos nos meus sonhos e eles nunca viraram a cara para mim", relatou ela.

Skatista 

Andreya Barros, tem 27 anos, e, em 2015, ela conquistou o título de Campeã Brasileira pela Confederacão Brasileira de Skate. A skatista começou a desenvolver seu amor pelo esporte como uma brincadeira no prédio, quando ainda era nova, e hoje sente que a profissão a ajudou a se empoderar dentre tantos homens.

Andreya se interessou pelo skate ainda criança
Andreya se interessou pelo skate ainda criança | Foto: Divulgação/Soraya Araújo
 

Ela iniciou seu contato com o skate quando ainda era criança, mas foi apenas aos 13 anos que ela pegou um skate emprestado para começar a andar. Em 2009, três anos depois, ela começou a frequentar eventos de skatistas e passou a ter mais contato com sua paixão. Depois disso, nos anos seguintes, ela fez amigos na profissão, começou a treinar manobras, e depois começou a trabalhar em lojas de skate em São Gonçalo e Niterói. 

"Essa época que trabalhei em skateshops foi essencial pra mergulhar fundo nos conhecimentos do skate: peças, montagens, modalidades, grandes skatistas e personalidades da história do skate. Em 2013, comecei a me dedicar aos campeonatos de skate, treinei muito, aprendi várias manobras e vivi a cena do skate na cidade. São Gonçalo estava na febre do skate, muitos skatistas por toda parte. Competi em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Belém do Pará, ou seja, estados que realizam campeonatos nacionais. Nos anos de 2014 e 2015, participei de vários campeonatos tive ótimos resultados e recebi o título de Campeão Brasileira pela CBSK. Não imaginaria que algo que começou com uma brincadeira pudesse me levar nesse lugar. De lá pra cá, o skate é meu estilo de vida, onde eu continuo aprendendo diariamente a ser uma pessoa melhor e a ter um olhar diferente para o mundo. O skate mudou minha vida", contou Andreya.

Segundo a mesma, foi difícil se inserir no meio do esporte por ser mulher. Apesar de não se sentir intimidada, Andreya começou a treinar para os campeonatos e sempre ouvia que não era capaz de fazer alguma manobra mais difícil. Isso, no entanto, deu mais força para ela, pois foi a partir daí que ela se reergueu e treinou mais ainda as manobras mais complexas. Hoje, ela domina os diversos estilos do skate nas competições. Sobre isso, ela dá dicas para as mulheres que ouvirem críticas dos homens em seus meios profissionais e na vida.

Hoje, Andreya domina diversas manobras no esporte
Hoje, Andreya domina diversas manobras no esporte | Foto: Divulgação/Soraya Araújo
 

"Primeiramente não se intimidem, muito menos concordem com comentários que as façam acreditar que vocês são menores ou não podem conquistar aquilo que de fato sonham, desejam e acreditam que são capazes. O preconceito com mulheres existe em todos os lugares e está historicamente enraizado, mas eu vejo que existe um olhar que há algum tempo vem sendo transformado entre os skatistas, porque muitas mulheres bem antes de mim tem escrito sua história de maneira emocionante, mandando muito nas ladeiras e pistas e rompendo com todos esses paradigmas. É a partir daí que eu vejo a mudança. As mulheres sendo incríveis pra elas mesmas e uma com as outras. Pra mim, o Dia das Mulheres é uma oportunidade de chamar atenção para a necessidade de acelerar os movimentos em direção à tão desejada igualdade de direitos. Há um século que nós mulheres falamos do mesmo assunto buscando igualdade de direitos. Há 10 anos que eu respondo sobre o tema no skate e vivo isso no dia a dia. Ainda temos situações que passamos preconceito. Aumentam os casos de feminicídio no nosso país. Chegou a hora de reconhecer que nós somos iguais, que devemos ter os mesmos direitos. Que podemos ser e fazer o que quisermos!", relatou ela com orgulho.

Tatuadora

Patrícia Modesto, de 31 anos, é tatuadora há cerca de um ano e meio. Depois de fazer matemática na faculdade, ela ouviu a sugestão de sua irmã para tentar virar tatuadora, já que Patrícia não gostava de lecionar e adorava desenhar. Então, ela fez um curso de tatuadora e, após se destacar na turma, ela foi contratada para trabalhar na filial da 4Tattoo localizado no Shopping Itaboraí Plaza, que funciona das 10h às 22h. A partir daí, ela resolveu se estabilizar na profissão. 

Patrícia se formou em matemática, mas optou por fazer tatuagens
Patrícia se formou em matemática, mas optou por fazer tatuagens | Foto: Filipe Aguiar
 

"Acho que sofri grande influência da minha família para me tornar tatuadora. Sempre desenhei e meu tio é pintor, já meu pai é desenhista técnico. Mas, confesso que no início as pessoas tinham preconceito quando eu dizia que queria ser tatuadora, pois eles acham que tatuador não ganha muito, coisa que eu discordo. Aqui no estúdio, com os clientes, eu também sinto preconceito, pois as pessoas já chegam querendo um tatuador homem e completamente tatuado. Eu sou mulher e tenho poucas tatuagens, então os clientes chegam desconfiando da minha capacidade só por isso", contou ela.

Para Patrícia, sua mãe e irmã, foram a base para ela se tornar quem é hoje e, por isso, é importante celebrar o Dia da Mulher. No entanto, ainda há muito o que evoluir no mundo da tatuagem para que haja a igualdade de gêneros no mercado de trabalho.

Uma das tatuagens de Patrícia na 4Tattoo
Uma das tatuagens de Patrícia na 4Tattoo | Foto: Divulgação
 

"Eu acho que temos que mudar muita coisa ainda, pois quando vamos a convenções e workshops de tatuagem eu ainda vejo muitos homens. Não sei se é algo de motivação, mas creio que ainda temos muito caminho pela frente", contou ela. 

Patrícia deixa um recado para as mulheres que querem iniciar em profissões que são majoritariamente masculinas, segundo a sociedade: "estude e "meta" a cara, pois a gente é capaz de tudo. Não tem nenhum empecilho para o que desejamos, sonhamos e queremos".

Vereadora 

Priscilla Canedo, de 40 anos, é a única vereadora do sexo feminino no município de São Gonçalo. Ela, que é bacharel em direito e pós graduada em Política e Processo Legislativo, já está fazendo história no município ao conseguir vencer a eleição de 2020 no cargo para o qual se candidatou. Ela conta que, apesar de hoje em dia estar rodeada de homens vereadores em São Gonçalo, existem muitas mulheres na política que a influenciaram. 

Priscilla é a única vereadora do sexo feminino em SG
Priscilla é a única vereadora do sexo feminino em SG | Foto: Divulgação
 

"Eu comecei aos 14 anos na política, quando fui levada pelas minhas tias Silvia e Cátia para a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), as duas já trabalhavam lá. Ali fui aprendendo muito, era voluntária e fazia tipo um estágio, na época não tinha Jovem Aprendiz. Meus primeiros passos foram ali no Plenário, onde percebi que muitas ideias viravam leis e assim poderiam mudar a vida das pessoas. Me dediquei muito e acabei conquistando a confiança de muita gente lá dentro. Lá também trabalhei fazendo lanches com minha mãe na cantina e isso também foi uma oportunidade para conhecer os funcionários e diretores que muito me ensinaram. Tive a oportunidade de ser assessora parlamentar. Ali eu vi que queria isso pra minha vida, poder mudar a vida das pessoas, ser parlamentar é ter a oportunidade de fazer a diferença. Fui candidata outras duas vezes mas, embora tenha tido uma boa votação, só consegui me eleger agora pela terceira vez. Fiquei muito grata pelo reconhecimento e pelo trabalho de tantos anos ajudando as pessoas e lutando por melhorias em São Gonçalo. Agora, no mandato, é fazer a diferença e continuar trabalhando muito para melhorar a vida dos gonçalenses, com um olhar especial para as mulheres, mas não único", contou a vereadora.

Para ela, o Dia das Mulheres é algo que deve ser sempre celebrado, já que é um símbolo de conquistas. Apesar disso, ela crê que o Dia das Mulheres é todo os dias. Para Priscilla, o mundo está mudando e a mulher tem se interessado mais por política e por entender os governantes e as leis de seus municípios. "Desde o início da minha vida política, sempre tive a oportunidade de ter muitas mulheres por perto me influenciando e ensinando. Então, na própria Alerj você vê que os parlamentares tem muitas mulheres em seus gabinetes e que elas são fundamentais, assim como também a participação feminina no próprio parlamento. Muitas deputadas são eleitas, ainda que não em maioria. Estamos lutando para melhorar esse cenário da participação feminina em todas as instâncias de poder", contou ela.

Priscilla quer representar o povo de SG
Priscilla quer representar o povo de SG | Foto: Divulgação
 

Priscilla fala que, apesar de ser a única vereadora do município, ela não sentiu muito preconceito de seus colegas de profissão homens. "Não senti olhar intimidador, pois sempre trabalhei nesse meio. A questão é você saber se colocar de igual para igual. Tenho sido muito bem recebida pelos colegas da Câmara. Não tenho do que me queixar, mesmo sendo a única vereadora mulher dessa legislatura, vejo que eles tem até um tratamento bacana com a questão", contou ela. 

A vereadora finaliza dando uma dica para as mulheres que querem ingressar no campo político. "Embora a maioria dos eleitores seja composta por mulheres, ainda é pequeno o número de mulheres na política. Infelizmente ainda não existe esse equilíbrio, mas aos poucos a gente vai rompendo barreiras. Tivemos uma presidenta, a Dilma. E também mulheres governadoras, como a Benedita. Mas claro, temos ainda um longo caminho para a percorrer e vejo que a participação feminina pode melhorar muito elegendo mulheres vereadoras e creio que isso vai ser ampliado com a demonstrava do trabalho comprometido que fazemos", afirmou Priscilla. 

Treinadora de futebol 

Natane Vicente, de 32 anos, é professora de Educação Física, treinadora de futebol e supervisora do “Projeto Cinderela” de futebol feminino. Ela, hoje, trabalha no Karanba, clube de futebol gonçalense. Lá, ela tenta repassar o respeito e amor que tem pelo esporte para outras jovens. Natane, que já conquistou diversos prêmios, se apaixonou pelo futebol com seis anos de idade, graças ao seu pai e aos seus ídolos, Bebeto e Romário. 

Natane foi influenciada por seu pai no amor pelo esporte
Natane foi influenciada por seu pai no amor pelo esporte | Foto: Divulgação/Gabriel Farias/Karanba
 

"Na infância, eu era influenciada pelo meu pai, que jogava futebol amador e me levava aos jogos, e pelos ídolos Bebeto e Romário na disputa da Copa do Mundo de 94. Nessa época, eu fazia karatê e o professor também dava aula de futebol, então me convidou para treinar. Daí em diante, segui atrás do meu sonho e nunca mais deixei o esporte, passando por times tradicionais como Duque de Caxias, Friburguense e Volta Redonda no Rio de Janeiro e Lusaca, na Bahia. Sobre a atuação como treinadora: em 2016, eu ainda era jogadora ao mesmo tempo que fazia faculdade de Educação Física e, na ocasião, fui convidada para ser treinadora da equipe do Karanba. Na época, eu ainda jogava pelo Caxias e conciliava com o comando dos treinos do projeto", respondeu ela. 

Hoje, ela é bem vista no mundo do esporte e já conquistou diversos prêmios. "Como jogadora do Karanba, fui campeã niteroiense e mageense, ambos em 2012. Já pelo Friburguense, fomos campeãs do torneio municipal em Cachoeiras de Macacu. No futsal, faturei a Liga Metropolitana, em 2011, pelo Fluminense de Niterói. Além desses troféus, duas conquistas me marcaram muito: em 2013, tive a oportunidade de integrar a comissão técnica do Karanba numa viagem para a Escandinávia. A viagem, por si só, já valeria como um prêmio, mas para coroar essa experiência, ainda fomos campeãs de dois torneios importantíssimos na Noruega e Dinamarca, a Norway Cup e a Dana Cup", relatou Natane.

Natane consegue ver que os tabus dos gêneros no esporte estão sendo quebrado, mas ela confessa que já recebeu muitos olhares desconfiados de outros atletas de futebol do sexo masculino e crê que ainda há sim algum preconceito. "No começo foi bastante intimidador porque esbarrava com olhares de desconfiança e críticas, mas mesmo assim, sempre soube me impor e cobrar respeito. As pessoas costumam colocar o seu gênero acima da sua capacidade profissional, mas esse é um obstáculo que precisamos superar na busca por igualdade. Eu penso que nós, mulheres, somos capazes de estar em qualquer lugar que desejamos. Minha dica é ser resiliente para conseguir superar os desafios, pois o nosso país ainda é muito desigual e a sociedade, de modo geral, costuma subestimar a nossa capacidade. Acredito na importância da gente se impor para vencer os estereótipos e demonstrar talento e competência", relatou ela.

Natane hoje ensina outras jovens que se interessam pelo esporte
Natane hoje ensina outras jovens que se interessam pelo esporte | Foto: Divulgação/Gabriel Farias/Karanba
 

Para Natane, o Dia das Mulheres faz lembrar da luta histórica que outras mulheres tiveram para que hoje conquistássemos o direito que temos. Sobre mulheres no esporte, ela dá exemplos de mais representatividade nos campos hoje em dia. "Na rodada de estreia do Carioca, por exemplo, vimos um quinteto de arbitragem totalmente feminino, e aí é importante se questionar quantas vezes isso aconteceu e o quanto temos que naturalizar a presença dessas profissionais no campo. Temos ainda um longo caminho pela frente em busca de visibilidade e reconhecimento. Por isso, é importante que a mensagem do 8 de março seja lembrada em todos os outros dias do ano, garantindo um mundo mais justo e igualitário pra gente", finalizou ela.

Com os exemplos anteriores, vimos que tanto homens quanto mulheres devem ter um lugar igualitário no mercado de trabalho hoje. Apesar disso, como representantes do sexo feminino, ainda devemos lutar por igualdade de salários, de cargas de trabalho e de mais direitos. Ainda há um longo caminho pela frente, mas vale sempre lembrar:  lugar de mulher é onde ela quiser!

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