Um basta contra a violência
Mulheres rompem longos ciclos de tortura física, moral e psicológica em SG e região

O Movimento de Mulheres de São Gonçalo realizou, de 2006 até hoje, mais de 22 mil atendimentos às vítimas em diversas áreas
Foto: Alex RamosPor Elena Wesley
“Eu dormia sem saber se acordaria no dia seguinte. Apenas tinha vida quando ele não estava em casa, pois, além da agressividade, ele me proibia de ver televisão, ouvir rádio, de conversar com os vizinhos e até mesmo visitar familiares. E ai de mim se não obedecesse aos seus pedidos. Hoje eu entendo que ele tinha medo de que eu abrisse a minha mente e percebesse que aquilo não estava certo”. Relatos como o da dona de casa L., de 57 anos, são recorrentes no Brasil, onde, a cada uma hora e meia, uma mulher morre apenas pelo fato de ser mulher, o que faz do país o sétimo do ranking de assassinatos contra o gênero feminino no mundo. Os números ainda alarmantes, apesar do histórico de leis que se dedicam a garantir os direitos desse segmento, inspiraram o tema da redação do Enem, realizado no último final de semana. Mais de 7 milhões de candidatos escreveram sobre “A persistência da violência contra a mulher” levando o debate dos locais de prova para as redes sociais e os espaços de convívio: o que pode ser feito para mudar este quadro?
Para a fundadora do Movimento de Mulheres de São Gonçalo (MMSG), Marisa Chaves, a escolha do tema se mostrou pertinente.
“É um tema atual e necessário diante dos números que o país apresenta. Apenas na nossa cidade, foram 30 casos de feminicídio em 2014, e a tendência é que este ano, infelizmente, tenhamos um novo recorde. À medida em que o Enem incorpora esta temática, dá visibilidade ao fenômeno e estimula o debate em diversas famílias e, consequentemente, a reflexão sobre que motivos levam a este quadro”, avaliou.
Ciclos rompidos - De 2006 a 2015, a sede gonçalense do Movimento realizou mais de 22 mil atendimentos, entre jurídicos e nas áreas de psicologia, pedagogia e assistência social. Refém do medo e da insegurança dentro da própria casa ao longo de quase 15 anos, L. foi uma das que encontraram ajuda para se ver livre da violência psicológica, física e sexual.
“Ele me chamava de ‘rapaz’, nunca pelo meu nome. Dizia aos meus filhos que eu não era mãe deles. A gota d’água para dar fim àquele sofrimento foi a suspeita de que ele abusava das crianças. O rendimento na escola caiu e o comportamento mudou. Descobri que ele ameaçava me matar caso algum deles contasse”, lembra a dona de casa. L. deixou a residência levando apenas as roupas como bagagem e passou pouco mais de seis meses em um abrigo, indicado pelo Conselho Tutelar. Hoje, participa dos atendimentos junto dos filhos, que buscam, apesar dos traumas, refazer a vida.
A boa notícia é que os centros de orientação têm percebido uma mudança de perfil das mulheres que procuram o primeiro atendimento.
“Antes elas esperavam a violência física como estopim e prova material contra a polícia. Recentemente temos verificado o reconhecimento da violência simbólica, dos momentos de tensão em que a pessoa se mostra agressiva, faz ameaças, como algo que já traz danos. ”, apontou Marisa.
Educação é chave para mudança
Por enxergar a violência como reflexo do machismo, Marisa Chaves argumenta que somente um investimento maciço em conscientização, desde a educação infantil ao ensino superior, será capaz de reverter o panorama de forma mais contundente. E é seguindo esta mesma perspectiva que a escritora gonçalense Yohana Sanfer lançará em dezembro o livro infantil “É de menino, é de menina”.
Segundo a autora de “Da Boca pra Dentro”, tanto ela quanto os leitores esperavam um novo livro de crônicas, até que uma experiência com crianças apontou a necessidade de tratar as questões de gênero com este público.
“A ideia desta nova obra surgiu durante uma sessão de autógrafos em Itaboraí, quando crianças entre 7 e 8 anos de idade questionaram que as crônicas que eu escrevia se direcionavam às meninas por falar de amor, esperança e amizade”, contou Yohana, envolvida com a igualdade de gênero desde quando cursava Serviço Social na Universidade Federal Fluminense (UFF), onde pesquisou sobre a mulher e os espaços públicos. Ela retratou a luta feminista por direitos e os direitos como políticas públicas no marco neoliberal, em sua monografia da graduação.
“É de menino, é de menina” já pode ser adquirido na pré-venda no site da livraria virtual www.sanferlivros.com.br, com brindes para pedidos feitos até o próximo dia 20.
SERVIÇO
Movimento de Mulheres
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