Metalúrgico: um passado de títulos e jogos memoráveis em São Gonçalo

Enviado Direto da Redação

Uma das mais fortes formações do Metalúrgico, na década de 60, quando foi bi-campeã em São Gonçalo

Foto: Divulgação

Por Ari Lopes e Sérgio Soares

Avocação de São Gonçalo para o futebol é antiga e rica em histórias de clubes e projeções de jogadores. Muito antes do surgimento das atuais equipes profissionais, a cidade tinha agremiações de torcidas apaixonadas, dos chamados tempos “românticos” do esporte, em que o amor a camisa era o maior patrimônio que podia se ostentar. Equipes de muito sucesso, como o Metalúrgico, o Eletroquímica, o Dínamo e o Estrela Dalva já não existem, mais estão preservadas na memória de ex-atletas e torcedores.

Fundado em 4 de agosto de 1938, o Metalúrgico cresceu, em Neves, na mesma proporção que o bairro passou a ser ocupado por várias indústrias, a partir da década de 30. O nome foi uma homenagem dos trabalhadores da Metalúrgica Hime, ligada à Companhia Brasileira de Usinas Metalúrgicas (CBUM) e que passou a funcionar a partir de 1920 naquele bairro.

Com diretores simpatizantes do futebol, a empresa não apenas “abraçou” o projeto de fundação, como cedeu uma área adjacente à fábrica, para a construção do campo. Rapidamente o gramado ganhou alambrado, vestuários, virando um mini-estádio para receber a equipe, sendo uma referência também para jogos de outros times da cidade na disputa de campeonatos municipais.

Com as cores vermelho e azul, as mesmas da empresa, e jogadores da indústria, o clube começou a ganhar fama e projeção no futebol gonçalense, segundo o pesquisadores em futebol Sérgio Mello e Auriel de Almeida.

Com a extinção da fábrica e do clube, a área onde existia o campo virou um grande matagal
Com a extinção da fábrica e do clube, a área onde existia o campo virou um grande matagal

No início de 1942, o clube conquistou o primeiro título municipal, com um elenco de “craques” como Lalindo, Aristeu, Silveira, Bertoldo, Bertola, Buia, Nei e Oswaldo. O feito o credenciou a disputar o campeonato estadual, junto com os vencedores de competições semelhantes em outras cidades do interior do estado.

Na primeira etapa, o time fez um emocionante “clássico com o rival Tamoio. E avançou com retrospecto de uma vitória por 3 a 2 e um empate em 3 a 3. Mas a “dureza” para a equipe de Neves continuou na fase seguinte, quando o adversário foi o Goytacaz, uma das mais fortes na época.

Em casa, o Metalúrgico venceu por 3 a 1 e no jogo de volta, no estádio Estádio Ary de Oliveira e Souza, em Campos, o time conseguiu segurar o empate em 2 a 2.

Nas Semifinais, parecia que o Metalúrgico viveria outro enorme obstáculo ao ser derrotado pelo Fluminense, de Nova Frigurgo, na Região Serrana, por 2 a 1, no dia 27 de janeiro de 1943, na casa do a adversário. Mas o que parecia ser um drama se transformou num “show de bola”. Diante da sua torcida, num domingo do dia 7 de fevereiro, a equipe gonçalense goleou o rival por 7 a 3, chegando a inédita final, contra o Royal, de Barra do Piraí, no Sul Fluminense. No primeiro jogo da final, numa partida de sete gols, melhor para o Royal, que venceu por 4 a 3, no dia 21 de fevereiro de 1943, no Estádio da Chacrinha, em Barra do Piraí. A esperança agora estava no jogo de volta, onde o time de SG contava com o apoio da torcida para ficar com o caneco com uma vitória simples. Na tarde de domingo, em 28 de fevereiro de 1943, em Neves, o Royal venceu novamente por 3 a 1 e foi o grande campeão.

Nos anos subsequentes, o time continuou embalado nas competições em São Gonçalo, conquistando um inédito tri-campeonato nos anos de 1943, 44 e 45. Em 1950 e 1951, a equipe se tornaria bi-campeão municipal, conseguindo ainda outro bi-campeonato nos anos de 1960 e 1961, época em que ainda tinha atletas de renome, como Doquinha, Cizinho, Joy, Audir, Zezinho eTamiro.

Declínio a partir da década de 60

A exemplo do que aconteceria com muitos clubes do interior fluminense, os anos 60 marcaram o declínio do Metalúrgico. A partir de 1962, os investimentos da Hime passaram a diminuir gradativamente, fazendo com que as conquistas ficassem difíceis. A partir da década de 70, já sem a parceria com a empresa, o clube deixou de disputar competições oficiais, passando a jogar apenas amistosos e torneios. O cabeça de área Elviz Lima Calvoza, de 57 anos, integrou as últimas equipes do clube, entre os anos de 1977 e 1978. Mesmo sem a grande estrutura do passado, ele se recorda que os jogos, mesmo amistosos, ainda mobilizavam muitos moradores do bairro. “As partidas nos fins de semana eram atrativos das pessoas”, relembrou ele, que hoje trabalha na Marinha Mercante.

Do estádio, no bairro de Neves, apenas a entrada é reconhecida
Do estádio, no bairro de Neves, apenas a entrada é reconhecida

Dono de um bar a apenas uma quadra do local onde existiu o campo, o comerciante Uédson Ferreira, o “Boguinha”, de 65 anos, guarda com orgulho a foto de uma das equipes do Metalúrgico na década de 60. “Eu era jovem e vi muitos jogos do clube, que reuniam famílias inteiras”, declarou. O comerciante revela que acompanhou com tristeza o fim do campo e das atividades do clube, anos mais tarde. A extinção aconteceu no fim de 1979. Com o passar dos anos, o campo oficial foi sofrendo gradativo processo de desaparecimento, com crescimento de mato no gramado e depredação dos vestiários. No ano de 2000, aquela área, situada na Rua Doutor Alberto Torres, que servia apenas para “peladas” dos moradores, acabou também fechada, com o fim da Metalúrgica Hime e a venda de toda área para a empresa Gerdau. A firma montou sua sede em parte daquele terreno e a área onde funcionou a metalúrgica e o campo estão irreconhecíveis.

Dínamo, clube de respeito no Mutuá

O futebol do passado também é fonte de boas recordações para outros clubes que impunham “respeito”, na cidade, como o Eletroquímica, clube dos funcionários da Cia. Eletroquímica Fluminense, que funcionou no bairro Alcântara entre os anos de 1934 e 1943. A empresa surgiu no chamado período áureo da industrialização da cidade, que por esse motivo, acabou conhecida como a “Manchester Fluminense”. Com jogadores da empresa, o Eletroquímica conseguiu conquistar título municipal de 1956. Mas outras equipes como o Dínamo, do Mutuá, estão no grupo seleto de equipes que mesmo sem parcerias, conseguiram conquistas marcantes no futebol gonçalense.

O engenheiro aposentado e ex-goleiro Cláudio Farias Martins, de 84 anos, guarda como autênticas relíquias, as fotos da equipe que subiu à elite gonçalense em 1960, em jogo contra o Paraíso, no Clube Tamoio. O time, que tinha como talentos Tapiu, Paulo, Jorginho, e o zagueiro Milton, ainda no primeiro tempo, conseguiu vantagem de 3 a 0.

Cláudio (no detalhe) com a equipe campeã no ano de 1960
Cláudio (no detalhe) com a equipe campeã no ano de 1960

No fim da partida, houve uma briga generalizada. O goleiro e o zagueiro Milton, que sofreram escoriações, chegaram a ser hospitalizados, mas se apressaram em deixar o local. “Queríamos comemorar o título no nosso bairro, mesmo muito machucados”, relembrou Cláudio. No ano seguinte, o Dínamo foi o vice-campeão gonçalense, perdendo o título para o “poderoso” Metalúrgico.

Outro que marcou época em São Gonçalo foi o Estrela Dalva, extinto no início da década de 70.

O goleiro do Dínamo voltou ao Mauá para relembrar outros jogos
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