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O dia em que o Tamoio parou o Flamengo: 3 x 3

relogio min de leitura | Redação 19 de julho de 2015 - 19:08

Na década de 40, um dos melhores times do Tamoio, que “encarou” o Fla de igual para igual

Naquela tarde de 1949, um ano antes de o Maracanã ser inaugurado, o estádio do Tamoio, no “coração” de São Gonçalo, foi palco de um grande jogo entre a equipe local e o Flamengo. A partida serviu para comemorar o aniversário do clube. Foi uma festa que movimentou uma autêntica “multidão” no campo da Avenida Presidente Kennedy, no Centro. A partida terminou empatada em 3 a 3 e ficou marcada na memória dos torcedores como a que ajudou a construir a gloriosa história da agremiação no cenário do futebol.

Fatos como esses fizeram com que o Tamoio Futebol Clube conquistasse um lugar especial no seleto grupo de grandes times que fizeram história no futebol de São Gonçalo. Fundada em 17 de novembro de 1917 por um grupo de moradores e comerciantes do bairro, a quase centenária agremiação alvinegra até hoje em atividade na Avenida Presidente Kennedy, colecionou títulos e fez do popular esporte a marca registrada.

O Alvinegro surgiu em uma época em que São Gonçalo ainda começava a ter migração em grande escala decorrente da instalação das primeiras fábricas. Era uma época em que a região central da cidade ainda tinha aspecto bucólico e áreas de grande vegetação, cenário ideal para a criação do campo de futebol. O nome do clube foi uma homenagem às tribos dos índios Tamoios, que segundo registros históricos, foram os primeiros habitantes da região, antes da chegada dos nossos colonizadores portugueses.

O campo passou a ser frequentado, não apenas entre as camadas mais populares da população, mais também por integrantes da chamada “elite gonçalense”. Nesse contexto, passou a ser um dos principais do município, sediando jogos do time da casa e de outras equipes nas primeiras edições dos campeonatos municipais, a partir de partir de 1920. O primeiro título registrado na Associação Gonçalense de Esportes Atléticos veio em 1931, época em que a competição era disputada por equipes já extintas, como o Porto Novo, Mutondo, Carioca e Neves.

O atual presidente, Jorair Ferreira, na arquibancada que restou (Foto: Julio Diniz)
O atual presidente, Jorair Ferreira, na arquibancada que restou (Foto: Julio Diniz)

Nas décadas de 30 e 40, os campeonatos gonçalenses começaram a ganhar formato de grandes competições, não apenas em número de equipes, mas também, com surgimento dos chamados “gigantes” do futebol na cidade - como o Metalúrgico, o Eletroquímico e o Mauá, que viria a ser o grande “rival” do Tamoio.

O procurador de Estado e advogado Jair de Azevedo Marinho, falecido em 2011 de causas naturais, aos 87 anos, foi um dos mais atuantes presidentes que o clube teve, sendo responsável pela modernização do campo e a construção de arquibancadas e o ginásio do alvinegro.

Uma curiosidade marca o ano da inauguração do campo, em 1946. “A direção contratou jogadores e montou um time qualificado. Na última rodada, já campeão por antecipação, o clube fez um “clássico” com o rival Mauá, que venceu por um a zero e colocou “água no chope” do Tamoio”, relembrou o jornalista Assueres Barbosa, um profundo conhecedor do futebol gonçalense, que faleceu aos 79 anos no início de junho de infarto, após anos trabalhando nos principais jornais da capital e do interior fluminense.

Mas no ano de 46, o jogo que movimentou o estádio, com o público se acotovelando, foi o inaugural, antes do início do campeonato municipal, contra o Vasco. Argemiro, Alfredo II e Dimas eram as estrelas do Tamoio. Do outro lado, um time misto do Vasco, com Esperidião, Mário, Djalma e João Pinto. No fim, vitória cruzmaltina, com gols de João Pinto e Mário.

Outros títulos - Sob a gestão de Jair Marinho, o Tamoio também levantou o título municipal da edição de 1952. O clube nunca conseguiu chegar às finais do campeonatos estaduais, que envolviam apenas as equipes do interior. Sem parcerias, a direção da agremiação, a partir da década de 70, passou a investir em outras modalidades de esporte e em eventos sociais. Nessa época, o campo deu lugar ao parque aquático e a única dependência que sobrou do pequeno estádio foram as arquibancadas. Anos depois, em 1991, aconteceu a última participação da equipe em uma competição profissional no futebol - o estadual da Série C em 1991, quando a foi quarta colocada.

Duas partidas comemorativas e um placar inesquecível

José Douglas e Edmar Heizer Costa tem orgulho da agremiação (Foto: Julio Diniz)
José Douglas e Edmar Heizer Costa tem orgulho da agremiação (Foto: Julio Diniz)

A história do Tamoio guarda algumas curiosidades no futebol, como as duas partidas comemorativas contra o Flamengo de Zizinho e cia, em novembro de 1949, quando completou 32 anos. E o estádio do clube foi o palco dos jogos, que movimentaram os meios esportivos e a cidade. Na tarde do dia 19 daquele mês, um domingo, o campo da avenida presidente Kennedy ficou pequeno para a inesquecível partida, que ficou empatada em 3 a 3.

Zizinho, já renomado jogador do Fla, fez o gol inaugural. Jaime empatou e o Tamoio chegou a estar vencendo, quando Lilico marcou. No início do segundo tempo, Durval descontou e o Fla “virou”, como novo gol de Zizinho. No fim do jogo, o atacante gonçalense Waldemar deixou tudo igual.

No ano seguinte, As duas equipes voltaram a se enfrentar em novo amistoso comemorativo, em 29 de novembro. Dessa vez, a equipe gonçalense foi impiedosamente goleada em casa por 9 a 0, com gols de Hermes (5), Esquerdinha(2), Jorge de Castro e Durval.

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Jornalista Assueres testemunhou história

Remanescente das equipes do Tamoio na década de 60, o aposentado José Douglas Ribeiro, de 70 anos, tem saudades dos tempos dos jogos no campo da Avenida Presidente Kennedy. “Nosso clube era tão respeitado e famoso que recebíamos convites com frequência para jogos fora da cidade”, recordou-se ele, que jogou como lateral e zagueiro. Outro que fala com orgulho da história do clube é o amigo de José Douglas, o aposentado Edmar Heizer da Silva Costa, o “Russo”, de 76 anos, que teve passagens marcantes pelo Tamoio, Mauá e o Eletrovapo, de Niterói.

Depois do futebol, o Carnaval acabou por se tornar o “carro-chefe do Tamoio. Na década de 70, concorridos concursos de fantasias abriam o carnaval no estado, com transmissão ao vivo pela TV Globo. Os eventos tinham a participação de artistas famosos.

Diretoria trabalha para vencer dívidas passadas

O parque aquático foi construído no lugar do campo de futebol (Foto: Divulgação)
O parque aquático foi construído no lugar do campo de futebol (Foto: Divulgação)

Faltando dois anos e meio para o centenário do clube, o Tamoio luta com dificuldades para se manter. O dia 3 de março de 2011 foi o pior da história, quando foi parar nas páginas policiais por causa da execução,a tiros, do vice-presidente José Carlos Santana, de 61 anos, na porta da agremiação. Na época, policiais da 72ª DP (Mutuá) apuraram que a morte teria sido tramado por pessoas que exerciam cargos na diretoria por causa de denúncias feitas pela vítima ao Ministério Público sobre a prática de várias irregularidades.

José Carlos havia descoberto um esquema de não contestação das cerca de 200 ações trabalhistas movidas contra o clube – cujo objetivo, segundo as investigações, era levar as dependências e bens a leilão,favorecendo os autores das fraudes.

O atual presidente, Jorair Ferreira, assumiu o clube em novembro de 2014, disposto a promover uma reforma para revitalizar a agremiação e direcioná-la aos caminhos de glória do passado. Mas a tarefa não será das mais fáceis. As dívidas trabalhistas e fiscais chegam a R$ 6 milhões. Enquanto o Departamento Jurídico do Clube trabalha para reverter o quadro, Jorair pensa em outras medidas para manter as finanças em dia.

Dos 23 mil associados, apenas pouco mais de 500 estão com as obrigações em dia. O presidente pensa em fazer uma campanha de recadastramento para atualizar o quadro de sócios. Entre as propostas para o ano do centenário, em 2017, Jorair não descarta a possibilidade de retomar as atividades no futebol profissional, com a formação de equipes para a disputa dos estaduais das divisões intermediárias.

Por Ari Lopes e Sérgio Soares

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