‘Cantusca’ conquistou título vencendo o vasco

Goleiro Celso foi um dos heróis do Torneio Início, defendendo cobranças de penaltis nos jogos contra o Fla, Bangu e S. Cristõvão
Foto: Arquivo do clubePor Ari Lopes e Sérgio Soares
A sala repleta de troféus logo na entrada do Canto do Rio Foot-Ball Club, no Centro de Niterói, representa os vários capítulos da grandiosa história de uma das mais tradicionais agremiações da cidade. Fundado no início do século passado, o ‘Cantusca’, como é carinhosamente conhecido, conseguiu fama e projeção, conquistando títulos e revelando jogadores que se tornaram famosos em âmbito nacional. Após o pionerismo do Rio Cricket, o Canto do Rio foi o segundo clube niteroiense a disputar o Campeonato Carioca, enfrentando grandes equipes da Capital, conquistando o Torneio Início do Carioca de 1953, com uma vitória de 3 a 0 sobre o Vasco, na final. O troféu conquistado, Comandante Viveiros de Castro, até hoje, tem destaque na numerosa galeria do clube.
Origens - Em 14 de novembro de 1913, quatro garotos, com idades entre 9 e 13 anos, moradores do centro de Niterói, se reuniaram para fundar a agremiação. O nome escolhido, fez alusão a localização na cidade na mesma área onde até hoje funciona a sede, na Avenida Visconde do Rio Branco. Ao longo dos anos, o clube se popularizou não apenas com o time de futebol, mas também com equipes de basquete e vôlei. O ‘Cantusca’ logo se tornou um dos mais populares da cidade.

Apogeu - A partir da década de 20, formou o chamado Grupo dos Seis com o Fluminense Atlético Clube, e os já extintos Ypiranga, Niteroiense, Byron e Barreto. Em 1921 e 1933, o clube conquistou duas edições do Campeonato Municipal. Cresceu tanto que se tornou-se o primeiro do antigo Estado do Rio a se profissionalizar, em 1941. Como todos os campeonatos organizados pela Federação Fluminense de Desportos eram amadores, a direção da agremiação, em busca de ‘vôos mais altos’, obteve licença especial para disputar o Campeonato Carioca de profissionais, a partir daquele ano.
Começava, então, o período de ‘sonhos’ em busca de títulos ‘fora de seus domínios’, como retratado pelos escritores José Rezende e Raymundo Quadros no livro “Vai dar Zebra”, que conta a história de equipes consideradas “pequenas” na capital e cidades vizinhas, como o Canto do Rio, mas que surpreenderam os favoritos em campeonatos do passado. Três anos depois, em 1944, o clube conseguia o primeiro grande resultado: a 3ª colocação no Campeonato Municipal do Rio, atrás do vice, América; e do campeão, Vasco.
Jogo duro contra o Santos de Pelé
A grande conquista do Cantusca aconteceu em 5 de julho de de 1953, quando conquistou, no Maracanã, inaugurado três anos antes, o Torneio Início daquela edição do Campeonato Carioca. Esse tipo de evento de abertura do campeonato, com eliminatórias em jogos simples em reduzidos tempos de quinze minutos, era uma forma de promover a competição.
Nessa ordem, venceu nos pênaltis, São Cristóvão, Flamengo e Bangu, após empate de 0 a 0 no tempo normal. Na decisão, após o empate em zero a zero no tempo normal, derrotou o Vasco na prorrogação, por três a zero, com gols de Jaime, Milton e Dodoca.
Celso Garcia, Rubinho, Nanati, Milton, Miltinho, Jaime, Herbert, Cleuson, Dodoca, Jairo e Carlos foi o time-base do torneio. Jogaram também Zé de Souza, Valter, Cleuzo, Binha, Raimundo, Roberto, Emanoel e Almir.
Mas os escritores do livro “Vai dar Zebra” narram outras passagens importantes do clube, como amistosos contra o São Paulo, em 1944, e até o Boca Junior, da Argentina no início de 1953. José Rezende e Raymundo quadros citam também um jogo que ficou marcado na história da cidade, em que o Cantusca fez jogo duro com Santos de Pelé, perdendo por 1 a 0, no Estádio Caio Martins, em 1957. O Canto do Rio realizou também duas excursões pela Europa, em 1958 e 1961.
Declínio - O clube manteve durante anos a equipe de profissionais no Campeonato Carioca e as amadoras em competições em Niterói. Mas, a partir de 1964, depois de uma confusão durante um jogo contra a Portuguesa da Ilha do Governador, no Caio Matins, que resultou em invasão de campo, o clube acabou excluido do futebol carioca. Chegava ao fim o sonho alvianil.

Ex-treinador da Seleção Brasileira dirigiu o alvianil entre 1957 e 1958
Graças a uma boa estrutura administrativa e o numeroso quadro de associados, o Canto do Rio conseguiu montar elencos competitivos e contou até com os chamados “medalhões” em seus times de futebol profissional entre as décadas de 40 e 60. Considerado um dos maiores treinadores brasileiros, Zezé Moreira dirigiu o clube no chamado período áureo, nas edições dos Campeonatos Carioca de 1957 e 1958. Um dos feitos da equipe foi a vitória de 1 a 0 sobre o Fluminense, em 1957, que acabou por tirar o tricolor da “briga” pelo título com o Botafogo.
Em junho de 1956, a diretoria do clube formou um bom time com a contratação de vários jogadores de renome, com destaque para o excelente goleiro Veludo, ex-Fluminense, Nacional de Montevidéu e Seleção Brasileira. Junto com Castilho, Veludo havia sido um dos goleiros da Copa do Mundo de 1954, na Suíça.
Além dele, foram contratados junto ao Fluminense o zagueiro Duque e os atacantes Vitor e Lafaiete. Outro destaque da equipe foi Orlando Pingo de Ouro, qu deixou o Atlético Mineiro para se juntar ao Canto do Rio. O campeonato foi vencido pelo Vasco e o clube de Niterói ficou com a nona colocação, atrás de São Cristóvão e Portuguesa.
Quem se recorda do Canto do Rio com carinho é o ex-atacante Hipólito Corrêa Chilinque, de 74 anos, que começou no clube de Niterói, em 1963. Graças a boa performance na competição, ele foi convidado a integrar a seleção carioca que enfrentou os paulistas, no Pacaembu.

Presidente busca revitalização
No ano passado, o advogado Rodney Gomes de Melo, de 50 anos, assumiu a presidência do Canto do Rio com a proposta de revitalizá-lo, não apenas no âmbito esportivo, ma também na área social. Ao longo de pouco mais de um ano de mandado, já conseguiu importantes realizações, como a conquista do vice-campeonato carioca de vôlei e a volta do futsal. Esse ano, uma das prioridades do presidente é retomar o futebol profissional para tentar reconduzir a equipe alvianil aos tempos de glória.
Para impulsionar o Canto do Rio, a atual diretoria precisa vencer os problemas administrativos deixados pelas gestões anteriores. Uma dívida de R$ 4 milhões -decorrente de ações trabalhistas, fiscais e tributárias - emperra o projeto de modernização. Mas a grande saída deverá ser a venda de uma área de doze mil metros quadrados. Além de acabar com défict, o dinheiro também será usado em investimentos no patrimônio. “Estamos trabalhando para que o clube, com tantas tradições e glórias, volte a crescer”, afirmou.
Um dos trabalhos da atual diretoria tem sido o de estimular a volta dos associados. Dos 5 mil, pouco mais de 600 estão em dia, número que era apenas de 250 quando a atual gestão assumiu. O clube também entrou na Justiça para reaver áreas que foram terceirizadas.