Instagram Facebook Twitter Whatsapp
Dólar R$ 5,0748 | Euro R$ 5,8452
Search

4 perguntas ainda sem resposta uma semana após tragédia com avião da Chapecoense

relogio min de leitura | Redação 09 de dezembro de 2016 - 14:00
As autoridades colombianas suspeitam que não havia mais combustível nos tanques do avião da Lamia, que caiu nas montanhas próximas a Medellín.
As autoridades colombianas suspeitam que não havia mais combustível nos tanques do avião da Lamia, que caiu nas montanhas próximas a Medellín. -
  • Ainda há perguntas sem resposta uma semana depois da tragédia com o voo CP-2933 da Lamia, que caiu na Colômbia, matando 71 pessoas, entre elas jogadores da Chapecoense.
  • O avião, um Avro RJ85, caiu na noite do dia 28 de novembro, em uma região montanhosa de difícil acesso quando se preparava para pousar no aeroporto José María Córdova, em Medellín.
  • O Departamento de Aviação Civil da Colômbia afirmou que a aeronave não tinha combustível no momento do impacto.
  • Já as autoridades da Bolívia suspenderam a licença de voo da Lamia e afastaram do cargo os chefes da Direção Geral de Aeronáutica Civil (DGAC) e da Administração de Aeroportos e Serviços Auxiliares de Navegação Aérea (Aasana), como parte de uma investigação.
  • Nesta quarta-feira, representantes da Bolívia, Colômbia e Brasil - países envolvidos no acidente - vão se reunir na cidade boliviana de Santa Cruz de la Sierra, de onde decolou o avião, para analisar os mecanismos, procedimentos e controles aplicados em seus territórios e estabelecer o que cada autoridade de aviação civil vai investigar.
  • As investigações precisam responder a quatro perguntas sobre a tragédia do voo da Lamia.
  • 1. Por que o avião decolou se haviam sido encontrados erros no plano de voo?
  • Para responder a essa pergunta, a Administração de Aeroportos e Serviços Auxiliares de Navegação Aérea (Aasana) da Bolívia apresentou notícia-crime contra a funciona Celia Castedo, que revisou e autorizou o plano de voo da Lamia.
  • A decisão das autoridades foi tomada depois que a imprensa boliviana divulgou, quatro dias após a tragédia, que Castedo tinha constatado erros na documentação apresentada pela companhia aérea para o voo.
  • As autoridades da Aasana querem que a funcionária seja investigada por não cumprimento de deveres e atentado à segurança dos transportes.
  • O caso ainda não foi analisado pela justiça boliviana, de acordo com o juiz do Distrito de Santa Cruz, Gomer Padila.
  • Mas se o processo for aberto, Celia Castedo pode receber uma pena de um a quatro anos de prisão.
  • Acompanhada de um advogado, ela esteve nesta segunda-feira à noite em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, para pedir asilo ao Brasil, de acordo com o delegado da Polícia Federal Sérgio Macedo.
  • O relatório que Castedo fez tem cinco observações sobre o plano de voo da Lamia, entre elas a de que o cálculo de autonomia de voo não estava correto e que faltava um plano alternativo de pouso caso houvesse uma emergência.
  • Castedo - funcionária com mais de 20 anos de experiência em navegação aérea - observou que o avião tinha combustível para voar durante 4 horas e 22 minutos, duração exata da rota prevista. Mas não tinha combustível necessário para voar por mais 30 minutos em caso de emergência, assim como não tinha os cinco por cento a mais exigidos pela legislação boliviana por se tratar de um voo internacional.
  • Além disso, Castedo engavetou o relatório da conversa que teve com o despachante da Lamia, Álex Quispe, que entregou o plano de voo e acabou morrendo no acidente.
  • Segundo a imprensa boliviana Quispe teria diro a Castedo que ecebera as informações do comandante do voo, Miguel Quiroga e que fariam o percurso no tempo previsto. A funcionária da Aasana teria incluído em seu relatório a resposta de Quispe a suas observações: "Não, senhora Celia, essa autonomia me foi passada. É suficiente para nós. Fazemos em menos tempo. Não se preocupe. É isso mesmo. Fique tranquila. Está tudo bem. Deixa comigo".
  • Agora resta saber por que, apesar das suas objeções e da resposta do despachante, Castedo deixou o voo CP-2933 decolar.
  • 2. Por que foi dada autorização para a Lamia - que tinha apenas um avião operando - funcionar na Bolívia?
  • A pequena companhia Lamia (Linha Aérea Mérida Internacional de Aviación) está no centro das atenções.
  • O ministro das Obras Públicas da Bolívia - pasta responsável pelo transporte aéreo -, Milton Claros, informou no domingo que o governo apresentou queixa contra a empresa.
  • Em entrevista à rádio boliviana Pátria Nueva, o ministro disse que encontrou "indícios de possível violação de deveres, desrespeito ao controle interno, tráfico de influência e omissão de denúncia".
  • As suspeitas de tráfico de influência se baseiam no fato de que havia relação de parentesco entre um ex-diretor da Direção Geral de Aeronáutica Civil (DGAC) e o diretor-geral da Lamia, Gustavo Vargas Villegas, e Gustavo Vargas Gamboa - pai e filho, respectivamente.
  • Vargas Villegas, que foi afastado do cargo, era responsável pelas licenças de voo das empresas.
  • "Chama atenção a relação entre servidores e empresa", disse o ministro.
  • Antes de começar a operar na Bolívia, há dois anos, a Lamia funcionava apenas no estado de Mérida, no noroeste da Venezuela.
  • O próprio governador de Mérida, Marcos Díaz Orellana, fez o anúncio do negócio, em agosto de 2010, como uma iniciativa que injetaria US$ 170 milhões (R$ 582 milhões) na economia local, geraria 717 empregos e, por meio de um convênio com o governo chinês, resultaria na compra de 12 aviões modernos.
  • Mas o deputado federal Joaquín Aguilar disse à imprensa que a Lamia operava de "maneira informal" na Venezuela e "não estava registrada" no Instituto Nacional de Aeronáutica Civil do país.
  • 3. Qual a influência do fato de o piloto também ser dono da empresa?
  • O boliviano Miguel Alejandro Quiroga Murakami era o piloto do voo CP-2933.
  • E também era um dos donos da Lamia, juntamente com o sócio Marco Rocha Venegas.
  • Essa dupla função teria sido decisiva no acidente.
  • Ao perceber que o avião não tinha combustível, quando se aproximava do aeroporto de Medellín, Quiroga optou por não declarar logo que enfrentava uma emergência e pediu apenas prioridade de pouso. Uma das teorias é de que ele temia levar pesada multa ou até sofrer a cassação de sua licença de voo.
  • "É muito doloroso que ele não tenha declarado a emergência por causa dos problemas pessoais que iria enfrentar depois", disse Alfredo Bocanegra, diretor de Aeronáutcia Civil da Colômbia.
  • De acordo com essa tese, o CP-2933 já estava com o combustível abaixo do mínimo permitido sobrevoou a região central da Colômbia, e por isso teria que pagar uma multa se tivesse feito uma parada de abastecimento em, por exemplo, Bogotá.
  • 4. A Conmebol recomendou o voo da Lamia à Chapecoense?
  • Segundo Marco Rocha Venegas, sócio da companhia com o piloto Miguel Quiroga, a Lamia havia se especializado há alguns meses em voos fretados para equipes esportivas.
  • Mas, na busca por responsáveis pela tragédia, surgiu o nome da Confederação Sul-americana de Futebol, a Conmebol.
  • Tudo por causa de declarações do piloto argentino Jorge Polanco:
  • "A Conmebol era conivente com a Lamia. Eles cobravam mais barato dos times. Era um negócio. A Conmebol recomenda, faz uma sugestão aos clubes".
  • Na quinta-feira passada, dois dias depois do acidente, a Chapecoense negou qualquer tipo de pressão da Conmebol na contratação da empresa boliviana e afirmou que critérios técnicos tinham determinado a escolha.
  • "Que fique claro, a contratação seguiu critérios técnicos, porque a Lamia reunia todos os requisitos que a Chapecoense buscava nas suas viagens internacionais", disse o diretor de comunicação do clube, Andrei Copetti, em coletiva na Arena Condá, a sede do clube.
  • Copetti comentou que um dos critérios foi a "qualidade da aeronave", que já havia sido usada "pela família real britânica".
  • "É um avião com todas as condições de fazer viagens de média distância, com todas as condições de segurança necesária", acrescentou.
  • A reação da Conmebol foi rápida.
  • "Entre as atividades de organização logística que a Confederação gere para realizar os torneios não está incluída a coordenação de nenhum tipo de transporte, assim como a recomendação de fornecedores de nenhum tipo", afirmou a entidade esportiva em comunicado também confirmado pela Lamia.
  • "A Conmebol não tem nada a ver com os voos dos clubes", disse o assessor de imprensa da Lamia, Miguel Ortiz.
  • O avião que caiu na Colômbia transportou a Seleção da Argentina para o jogo com a seleção brasileira, no início de novembro, em Belo Horizonte, bem como na volta para Buenos Aires.
  • Além disso, a Lamia também firmara um acordo com o Atlético Nacional, a equipe colombiana que enfrentaria a Chapecoense nos dois jogos da final da Copa Sul-americana.

Fonte: BBC Brasil. 

Matérias Relacionadas