Do Porto do Rosa à Copa do Mundo: carregando o nome de São Gonçalo, Vini Jr. vira maior esperança do hexa
Nascido e criado no bairro às margens da BR-101, atacante é lembrado por conhecidos da época de infância

Quem passa pela BR-101, rodovia que serve de ligação entre as regiões metropolitanas de Itaboraí, São Gonçalo e Niterói ao Rio, não imagina que ali, às margens da via, na altura do bairro Porto do Rosa, em São Gonçalo, numa rua sem saída, um dos maiores jogadores do futebol mundial na atualidade deu seus primeiros chutes na bola. Foi ali, entre partidas improvisadas com amigos e tardes inteiras brincando na rua, que cresceu Vinícius Junior, que hoje lidera a Seleção Brasileira na busca do hexa na Copa do Mundo.
Aquele menino que jogava descalço em São Gonçalo chegou de novo Vini Jr.
"Aquele menino que jogava descalço em São Gonçalo chegou de novo. Copa do Mundo é o auge da carreira de qualquer jogador e vou pra minha segunda", postou Vinícius em suas redes sociais após ser anunciado pelo técnico Carlo Ancelotti como um dos 26 convocados.

A mensagem emocionou moradores da cidade que acompanharam sua trajetória desde os primeiros anos de vida. Antes dos estádios lotados da Europa, onde hoje defende o Real Madrid, da Espanha, dos títulos internacionais e dos prêmios individuais, a memória de amigos, familiares e treinadoras relembra nessa reportagem de O SÃO GONÇALO, o garoto que corria pelas ruas do Porto do Rosa carregando uma bola nos pés e um sonho que parecia distante.
Durante a infância, Vinícius Junior morou com os pais e a avó em uma casa simples da comunidade. A rotina era parecida com a de tantas outras crianças do bairro: escola, brincadeiras na rua e muito futebol.
A moradora Cristiane Ramos, de 48 anos, acompanhou parte dessa fase. "Eu chegava em casa e ele estava sempre brincando. Devia ter uns nove ou dez anos. Ele já jogava na base do Flamengo, mas quando vinha para cá, vivia na rua com as outras crianças", relembra.

Mesmo sem conviver diretamente com ele, Cristiane diz que o talento chamava atenção. "Já dava para ver que ele tinha alguma coisa diferente. Parecia que já tinha nascido pronto para jogar futebol", contou.
Hoje, ao ver o nome do antigo vizinho estampado nos principais jornais esportivos do mundo, ela se orgulha de ter acompanhado, ainda que de longe, os primeiros passos do atacante.
Muito antes de vestir a camisa da Seleção Brasileira e se transformar em estrela do futebol mundial, Vinicius percorreu os campos de bairro da região. Ele estudou no Colégio Odete São Paio, passou pela escolinha do Flamengo, no Mutuá, e também atuou no futebol de salão do Canto do Rio, em Niterói.
Foi justamente no núcleo da escolinha do Flamengo, em São Gonçalo, que um dos principais personagens da sua formação percebeu que estava diante de um talento incomum. Carlos Eduardo Abrantes Beraldini, o Cacau, de 55 anos, coordena a escolinha desde 2001 e conheceu Vinicius em 2006, quando o garoto, com apenas 5 anos, chegou levado pelo pai para participar dos treinamentos. "Ele já chegou mostrando técnica e velocidade acima dos meninos da idade dele. Mas foi entre oito e nove anos que isso começou a aparecer de forma muito clara", recorda.
Segundo o treinador, o jovem atacante passou a disputar competições contra atletas mais velhos e seguia se destacando. "Ele participava de competições com garotos de 11 anos. Mesmo sendo mais novo, era destaque e muitas vezes terminava como artilheiro", disse.
Para Cacau, havia algo que o diferenciava das demais crianças. "Com nove anos a gente percebeu que ele estava muito acima em técnica e agilidade. Mas uma coisa chamava atenção: se ele errava uma jogada, fazia de novo. Não se escondia", afirmou.
A evolução foi tão rápida que, aos 10 anos, o treinador decidiu levá-lo para uma avaliação na Gávea. "Eu levei ele para a escolinha da Gávea e ele foi aprovado. Nessa época treinava duas ou três vezes por semana no clube e continuava treinando com a gente. Até que aos 13 anos a rotina dele passou a ser totalmente dedicada ao futebol rubro-negro, pois passou a treinar a semana toda, ele precisou se dedicar exclusivamente ao clube. Foi um caminho natural", afirma Cacau.
Se nos gramados Vinicius chamava a atenção desde cedo, nos estudos a realidade era bem diferente. Uma das provas realizadas pelo jogador quando estudava no Colégio Municipal Paulo Freire, mostra um aluno comum, com desempenho regular, semelhante ao de milhares de crianças da cidade.
Não era o melhor da turma. Não colecionava destaques acadêmicos. Dividia o tempo entre os estudos, as brincadeiras com os amigos e a paixão pelo futebol.
A diferença estava na dedicação que demonstrava quando a bola rolava. Enquanto muitos meninos sonhavam em ser jogadores, Vinicius transformava o sonho em rotina.
Mesmo depois de entrar para as categorias de base do Flamengo, Vinicius manteve o vínculo com a escolinha onde começou.
Todos os troféus que ganhava ele trazia para a escolinha Cacau Treinador
Segundo Cacau, ele fazia questão de retornar sempre que podia. "Todos os troféus que ganhava ele trazia para a escolinha. Conversava com as crianças, contava como tinham sido as competições e dividia aquele momento com elas", contou.
A última visita aconteceu pouco antes de sua transferência para o Real Madrid. "Ele veio fazer uma gravação e não avisou ninguém. Quando percebemos, tinha uma fila virando o quarteirão. E mesmo assim ele atendeu uma pessoa de cada vez", relembra.
O treinador conta que o sucesso do ex-aluno acabou fortalecendo a própria escolinha. "O fato de o Vinicius ter se tornado profissional ajudou bastante a escolinha. As crianças passaram a acreditar ainda mais que era possível", garantiu.
Hoje, trazer o atacante novamente para uma visita exige uma logística muito maior. "Para ele vir hoje precisa ser algo muito bem estruturado. Ficou mais complicado. Mas a expectativa sempre existe", disse.
Anos depois de trocar as ruas do Porto do Rosa pelos gramados da Europa, Vinícius Júnior segue sendo referência para quem cresce onde tudo começou. Enquanto brilha em mais uma Copa do Mundo com a camisa da Seleção Brasileira, o menino que jogava descalço em São Gonçalo continua inspirando novos sonhos nos campos de terra da cidade.
O campo administrado pela Associação de Moradores continua recebendo diariamente dezenas de crianças que alimentam o mesmo sonho que ele carregava quando corria pelas ruas da comunidade.
Presidente da associação, Rondinelli Fonseca de Araújo, de 46 anos, acompanha essa movimentação diariamente. Entre os meninos que treinam no local está Riquelme Soares de Araújo, de 10 anos. Questionado sobre quem é sua inspiração, ele responde sem hesitar: "Quero ser igual ao Vinicius."
O sentimento é compartilhado por Pedro Henrique, de 12 anos. "Ele é craque. Queria jogar igual a ele." Os dois contam que cresceram ouvindo histórias sobre o atacante e sabem que ele nasceu praticamente no mesmo lugar onde eles vivem hoje. Para eles, isso transforma um sonho distante em algo possível.
Para Cacau, o sentimento compartilhado por quem acompanhou a trajetória do jogador é de gratidão. "Nosso sentimento é de orgulho total. Ver aquele menino sonhador realizando tudo aquilo que sonhou mostra para outras crianças que também é possível. Sempre sonhamos em revelar um atleta para o Flamengo. Com o Vini foi muito além disso", conclui.

Quando escreveu que o menino que jogava descalço em São Gonçalo estava indo para sua segunda Copa do Mundo, Vinicius não falou apenas sobre a própria carreira.
A frase também representa milhares de crianças que continuam ocupando os campos de terra da cidade, chutando bolas gastas e imaginando onde poderão chegar.
No Porto do Rosa, a rua sem saída continua lá. Os campos de bairro continuam recebendo novos garotos em busca de serem" novos Vinicius" todos os dias. E, para muitos meninos que treinam na região, a história de Vini Jr. é a prova de que, às vezes, o caminho até uma Copa do Mundo pode começar exatamente ali, no lugar onde tudo parece pequeno demais para comportar sonhos tão grandes.












