Um dos maiores craques do Futebol, gonçalense e ídolo de Pelé, Zizinho completaria 100 anos nesta terça-feira (14)

Nascido em Neves, Zizinho saiu de São Gonçalo para fazer história no futebol mundial

Escrito por Daniel Magalhães 14/09/2021 10:35, atualizado em 14/09/2021 11:18
Thomaz Soares da Silva, o Zizinho
Thomaz Soares da Silva, o Zizinho . Foto: Arquivo Pessoal

São Gonçalo é uma cidade conhecida por ser berço de inúmeros artistas e atletas que atingiram fama em níveis internacionais, como Vinícius Júnior, que joga atualmente no Real Madrid. Mas não é de hoje que a cidade tem um outro nome do qual se orgulhar: Zizinho. O jogador, que completaria 100 anos nesta terça-feira (14), é um dos responsáveis por colocar o município no mapa do futebol, mas muitos se questionam hoje se a cidade dá o devido reconhecimento e valor ao profissional que fez história em clubes do Rio de Janeiro. 

Nascido em Neves, São Gonçalo, em 14 de setembro de 1921, Thomaz Soares da Silva é considerado um dos maiores jogadores brasileiros de todos os tempos, sendo reconhecido no Museu do Futebol como “o mais completo jogador nas décadas de 40 e 50”. O meia armador é também considerado o antecessor de Pelé, que não esconde a admiração que tem por Zizinho, além de sempre mencionar o quanto seus conselhos foram importantes para sua carreira rumo ao estrelato. Também chamado de “Mestre Zizinho”, o ídolo é conhecido por ser o tutor de alguns outros grandes nomes de antigas gerações do futebol, como o niteroiense Gerson, que fez história no Fluminense.

A história do primeiro ídolo gonçalense do Futebol começa quando o jovem Zizinho, que trabalhava na antiga fábrica de tecidos do Barreto, deu o pontapé inicial para seguir o sonho de se tornar jogador profissional de futebol. Começou então a jogar em times pequenos da região, como o Byron, de Niterói, além de pequenos times de São Gonçalo, tudo isso enquanto ainda trabalhava como operário. Pouco tempo depois, fez teste para integrar o elenco do América, seu time do coração, mas não foi chamado. Posteriormente, em 1939, foi contratado pelo Flamengo, onde começou a rabiscar o início de sua trajetória gloriosa no futebol.

Em seu primeiro ano no Rubro-Negro, o gonçalense, que teve a responsabilidade de entrar no lugar do gigante Leônidas, já conquistou o Campeonato Carioca de 1939 aos 19 anos. Nos anos 40, deu início a campanha histórica do Flamengo, quando o clube conquistou o tricampeonato estadual em 1942, 1943 e 1944. Zizinho encerrou sua trajetória no Flamengo após 11 anos, em 1950, deixando o clube com a marca de 318 jogos e 146 gols, sendo considerado o maior ídolo do clube até a aparição de Zico. Apesar do nome e história construída no Flamengo, a saída de Thomaz do Flamengo não foi tão amigável. Com todo o sucesso que vinha fazendo, inúmeros clubes correram atrás do grande nome do momento, mas o jogador acabou sendo vendido sem seu consentimento ao Bangu.

Embora muitos conheçam o lado polêmico do artilheiro, poucos sabem do lado atencioso e dedicado à família do Mestre Ziza. Como descrito pela própria filha do Zizinho, Kátia Regina Marins, o pai fazia de tudo para tirar um sorriso dos amigos e familiares.

“Tem uma diferença entre o pai Thomaz Soares da Silva e o Zizinho profissional, justamente como em toda a família. A pessoa quando está em um ambiente profissional adota posturas e comportamentos adequados ao cargo que é submetido, mas em casa, com a família, sempre foi muito carinhoso, fazia de tudo para agradar, ria, conversava muito e contava muitas histórias.”, disse a filha ao OSG, que ressaltou: “Ele sempre foi um homem de posicionamentos! O Zizinho sempre foi visto pela família como uma pessoa inteligente, ética, íntegra, honesta e leal. Gostava das coisas certas!”, afirmou.

Em meio ao sucesso no Flamengo e a polêmica transferência para o Bangu, o craque foi convocado para a Seleção Brasileira em 1942, onde permaneceu até 1957. Mais uma vez, Zizinho fez história, participando de 54 jogos e marcando 30 gols. Foi inclusive na Copa de 1950, que Zizinho recebeu o apelido de Leonardo da Vinci do futebol, após o jornalista italiano escrever “o futebol de Zizinho me faz lembrar Da Vinci pintando alguma obra rara”. Na ocasião, Thomaz alcançou o status de mestre, mesmo tendo uma pequena participação no torneio, já que estava lesionado nos dois primeiros jogos, nos quatro jogos posteriores, no entanto, o meia marcou dois gols, sendo nomeado o melhor jogador da competição, apesar da derrota do Brasil para o Uruguai na final.

| Foto: Acervo Histórico Nacional
 

Entre o desapontamento de sair do Flamengo quase que pela porta dos fundos e ter perdido a Copa de 1950, Zizinho confessou no livro Nação Rubro-Negra que a saída polêmica do Flamengo foi de fato a mais decepcionante. “Difícil dizer o que me magoou mais, se foi a perda da Copa de 50 ou a minha saída do Flamengo… acho que foi a saída do Flamengo, a maneira como os homens que dirigiam o clube fizeram a transação me machucou muito… nunca aceitei”. 

Para o craque, porém, não lhe restava outro destino a não ser fazer história, o que foi exatamente o que fez em sua passagem pelo seu novo clube, o Bangu. No clube, o Mestre Ziza foi responsável por transformar o Alvirrubro em um time mais competitivo, tornando-se vice-campeão carioca um ano após sua contratação. Dois anos após entrar para o clube já foi considerado o artilheiro, sendo um dos cinco melhores da história do Bangu. Zizinho permaneceu no Alvirrubro até 1957, mas voltou em 1961 como técnico e jogador ao mesmo tempo. No cargo, ou melhor, nos cargos, conseguiu fazer o Bangu conquistar o segundo vice campeonato carioca. 

Mestre Ziza como tutor

Zizinho, outrora um dos jogadores mais famosos do país, sempre foi visto como um exemplo para outros jovens jogadores, como o Rei Pelé, que nunca escondeu a admiração pelo Da Vinci do futebol. Outro que sempre admirou o atleta gonçalense, foi o famoso Gérson de Oliveira Nunes, popularmente conhecido como "Canhotinha de ouro''. 

“Zizinho, Jair da Rosa Pinto e o Didi. São os meus três mestres”, disse Gérson ao OSG. “O Zizinho era até mais fácil porque morava em Niterói, o pai de Zizinho jogou com o meu pai, então as famílias se conhecem muito.", completou. 

Mestre Ziza e o pai de Gérson eram muito amigos. Um frequentava a casa do outro quase que rotineiramente. Zizinho, em uma de suas visitas, notou o talento do filho de seu amigo para o futebol e o apadrinhou, dando várias dicas e conselhos para que trilhasse um caminho de sucesso no futebol dos gramados e abandonasse o futebol de areia, o que deu muito certo. Assim como a filha do jogador, Gérson lembra do temperamento de seu mestre, também o descrevendo como uma pessoa dócil, de riso fácil, até que pisassem em seu calo. 

"Temperamento tranquilo até que pisasse no pé dele. Dentro do campo valente toda vida. Fora do campo era gente da melhor qualidade, não se desentendia com ninguém, era uma pessoa dócil, amigo dos amigos, parava em qualquer lugar, conversava com todo mundo, mas tinha aqueles momentos dele, assim como todo mundo.", disse Gérson.

Fim da carreira como jogador e técnico

Após o sucesso no Flamengo e no Bangu, Zizinho recebeu também a proposta para integrar o elenco do São Paulo, onde ficou por apenas um ano. Depois, teve uma passagem rápida pelo Audax Italiano e encerrou sua carreira de atleta no Uberaba. Após toda a carreira brilhante no futebol, Zizinho, que não gostava de ficar parado, mudou drasticamente de profissão, abandonando toda a fama para trabalhar como fiscal da Fazenda do Estado do Rio de Janeiro. 

Apesar da mudança brusca na profissão, Zizinho continuou nutrindo o amor pelo esporte, sempre caçando na televisão algum programa de qualquer modalidade que seja, de futebol a tênis. Devido ao seu extenso conhecimento em futebol, era frequentemente buscado por jornalistas esportivos para tecer comentários sobre jogos da época. 

Depois de uma longa contribuição para o futebol brasileiro, Thomaz Soares da Silva faleceu em 8 de fevereiro de 2002, em decorrência de problemas cardíacos. 

Um dos últimos momentos gravados do craque
Um dos últimos momentos gravados do craque | Foto: Reprodução
 

Homenagens

Ainda em vida, Zizinho recebeu homenagens de clubes por onde passou. O São Paulo, por exemplo, deu um carro de presente para o ex-jogador quando ele completou 80 anos. Em 2000, Mestre Ziza teve seu nome incluído na "Calçada da Fama" do Flamengo. Depois, ele participou de outras duas calçadas da fama. A primeira no "Hall da Fama" da emissora esportiva ESPN Brasil e a segunda na "Calçada da Fama" do Maracanã. Curiosamente, a placa com as pegadas de Zizinho foi umas das 73 peças perdidas durante a reforma que o estádio passou em 2013, mas foi recuperada recentemente, em 2019.

Após sua morte, foi homenageado mais vezes. A primeira aconteceu em 19 de fevereiro de 2002, poucos dias após sua morte, quando os deputados Paulo Albernaz e Wolney Trindade fizeram um projeto de lei renomeando o estádio Caio Martins para Thomaz Soares da Silva/Mestre Ziza. 

Em 2006, uma rua do bairro de Campo Grande, na Zona Norte do Rio, teve seu nome alterado para Tomás Soares da Silva (forma em que alguns jornais escreviam o nome dele). E em 2019, a organização da Copa América definiu uma votação para escolher um nome para o mascote do torneio, o nome "Zizito", em homenagem ao ídolo, foi escolhido com 65% dos votos. 

Thomaz Soares da Silva, o Zizinho
Thomaz Soares da Silva, o Zizinho. Foto por Arquivo Pessoal
. Foto por Acervo Histórico Nacional
Um dos últimos momentos gravados do craque
Um dos últimos momentos gravados do craque. Foto por Reprodução

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