Cordelista de São Gonçalo produz cordel em tributo ao Cazaquistão
Obra já foi traduzida para o russo e aprovada pelo Consulado do país asiático

Por Rennan Rebello
O cordel é um dos ícones da região Nordeste que difundiu-se por todo Brasil e que conquista leitores de diversos lugares a cada dia. Prova disso, é o fato do Cazaquistão, país situado na Ásia Central, que tem o russo como uma de suas línguas oficiais por ter sido uma das 15 da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS, 1922-1991), ter inspirado o cordelista cearense radicado em São Gonçalo, Zé Salvador, a 'encurtar' a distância entre as culturas brasileira e cazaque através de sua arte, ao compor uma obra em tributo ao poeta cazaquistanês Abai Qunanbayuly (1845-1904), que é muito importante culturalmente aos cazaques.
"Tudo começou por conta de um convite feito pela Jocilene Bicas, bibliotecária da Biblioteca Annita Porto Martins, no Rio Comprido, para participar de um concurso de poesias promovido, em 2019, onde fui o primeiro colocado. Com a pandemia , ela me pedia vídeos curtos declamando meus poemas para as suas lives. E no dia 13 de outubro de 2020, ela me procurou e me fez um convite especial. Como o Cazaquistão iria inaugurar um espaço na biblioteca, eles pretendiam fazer antes da inauguração desse espaço, uma oficina incentivando o cordel, que é uma literatura genuinamente brasileira. Seria uma espécie de live sobre as técnicas, de como fazer um cordel. Aceitei o convite e pude conhecer a obra do poeta cazaque homenageado, o Abai Qunanbayuly. O objetivo era fazer uma ponte entre as duas culturas. Depois disso, conversei com o pessoal da Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro e com o tradutor Edélcio Américo, da obra do poeta Abai, intitulado como "O livro das palavras" e ministrei as duas palestras que foram realizadas, com a participação do tradutor, e o pessoal da Secretaria. Na ocasião, falei sobre as técnicas do cordel, e o tradutor falou um pouco sobre o Cazaquistão e do Abai. Como eram mais ou menos duzentos inscritos na oficina. A proposta, seria que os participantes desenvolver textos sobre o poeta cazaque. Mas pelo tempo ser curto, este conhecimento acabou sendo mais uma curiosidade para as pessoas. Então, eu resolvi escrever o cordel sobre o poeta Abai como uma homenagem a sua memória e ao seu país", explica o cordelista cearense-gonçalense.
Zé Salvador, que também é membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC), sediada em Santa Teresa, Zona Central, do Rio, revelou a reportagem que este trabalho original, inclusive, já foi traduzido para a língua russa e aprovado pelo Consulado do Cazaquistão. Já o lançamento deve acontecer entre o fim deste mês ou em idos do ano que vem.
"Quando contei a ideia de produzir um cordel sobre o Abai, o Edélcio Américo comprou a ideia e traduziu, ainda que não tenha sido em poesia, pois teve muitas dificuldades na metrificação e outros pormenores. Ele apresentou ao Consulado, que aprovou mas exigiu duas ou três modificações, as quais foram feitas. Em seguida, a obra foi enviada para o Cazaquistão que também, segundo o tradutor, aprovou. Agora, estamos esperando o lançamento. A promessa é que sairá até o final de dezembro ou no início de 2021. Nós já estamos ansiosos. Inclusive, quando reabrir as bibliotecas, a Biblioteca Annita Porto Martins irá fazer uma exposição no espaço com esses cordéis que provavelmente serão produzidos sobre o poeta Abai. Mas para isso, estamos aguardando a pandemia passar ou pela vacina contra a covid-19", revelou.
Para esta empreitada de adaptar a cultura cazaque em forma de cordel através da leitura de "O livro das palavras", que é a única obra traduzida de Abai Qunanbayuly; Zé Salvador teve que se aprofundar nesta obra literária e na trajetória do autor. "O Abai foi um pensador iluminista, ativista social, humanista, ele foi o fundador da literatura nacional e da escrita em cazaque. Daí, a sua importância para seus compatriotas. Ele seria como Luís de Camões aos lusitanos", compara o artista que também deseja visitar a nação da qual estudou durante este período de produção, que o exigiu um estudo rigoroso da geografia e história do país de seu biografado na narrativa cordelista.
"O Cazaquistão me despertou muita admiração e se eu tivesse um convite para fazer uma oficina de cordel por lá, eu iria sem pensar duas vezes. Não tenha dúvidas! Estudei bastante aquele país e sei que a população gosta muito de nós brasileiros, inclusive descobri que a capital Nursultan (batizada com o nome do presidente que projetou a cidade) foi planejada e inspirada em Brasília. Outra coisa que me encanta também é a arquitetura e o contraste entre o novo e o velho separado pelo rio. O presidente atual (Kassym-Jomart Tokayev) quer que seu país seja reconhecido também culturalmente internacionalmente. Pois o Cazaquistão, tornou-se independente da antiga União Soviética há apenas 29 anos e ainda é um país novo. Mas enfim, seria um prazer poder visitar os cazaques representando a literatura de cordel que para mim é uma missão. Tanto que aqui, em São Gonçalo, estou planejando criar um concurso de cordéis para entrar no calendário cultural do município. Meu sonho é expandir esta cultura", comentou.
Além deste primeiro trabalho literário a nível internacional, Zé Salvador também tem inúmeros cordéis autorais, como os da série "São Gonçalo em Cordel", da qual escreveu junto com o escritor gonçalense Erick Bernardes, que além de serem difundidos na cidade também tem alguns exemplares como: "Ilha de Itaoca: uma história de cinema em São Gonçalo", "Ilha do Sol: Luz del Fuego e o naturismo no Brasil", "Grande Prêmio de Neves: o automobilismo em São Gonçalo", "O Palacete do Mimi no Boqueirão Pequeno" e "Carlos Gianelli: um Cônsul uruguaio nas terras gonçalenses", que apesar de estarem em português, foram doados pelo jornalista que escreve esta matéria para a Biblioteca de Zelongradskaya, na Rússia, situada na região de Moscou.