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Atriz de São Gonçalo monta espetáculo teatral que aborda a temática do feminicídio

Peça 'Mujeres de Arena' foi inspirada no texto do dramaturgo mexicano Humberto Robles

relogio min de leitura | Redação 08 de dezembro de 2020 - 17:20
Atriz Rosite Val é uma das responsáveis pela adaptação teatral de “Mujeres de Arena - um grito contra os feminicídios”
Atriz Rosite Val é uma das responsáveis pela adaptação teatral de “Mujeres de Arena - um grito contra os feminicídios” -

Por Rennan Rebello


O Brasil é um dos países que mais matam mulheres no mundo. Recentemente o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), constatou que o país registrou 648 feminicídios nos primeiros seis meses de 2020, contabilizando assim: 1,9% a mais que no mesmo período do ano anterior. Esta temática não é apenas algo exclusivo a estudos especializados e noticiários, já que também é uma pauta que também é ligada às artes, como demonstra o espetáculo “Mujeres de Arena – um grito contra os feminicídios” que é interpretado pela atriz Rosite Val, em um monólogo que faz o público emergir sobre um tema tão sério através do entretenimento.

A montagem também traz relatos de outras nações sul-americanas, tais como: Argentina, Bolívia, Colômbia, Venezuela, de Guiana e Suriname. “O texto original, em espanhol, é do Humberto Robles (dramaturgo mexicano). Nele temos seis personagens: cinco mulheres e um narrador, e esse texto sempre é montado no formato de um documentário, digamos, de teatro documental como nosso autor chama. A nossa versão, a primeira em língua portuguesa, traduzida por mim e Mirian Arce (produtora teatral argentina), é diferente. Transformei esse teatro documental num monólogo e isso exigiu que eu fizesse uma nova dramaturgia dentro da dramaturgia existente para fazer sentido, incluí estatísticas, números reais da violência contra a mulher no nosso país e em outros. Além disso, escrevo sempre o último caso apresentado (são cinco no total) que varia de acordo com cada cidade, ou seja, é o caso local que dá aquele soco no estômago de todos (mais ainda)”, explicou Rosite, que também relembrou durante entrevista que algumas espectadoras a procuraram para conversar após a sua apresentação no palco.

“Na primeira temporada no Rio de Janeiro, em 2018, teve uma senhora viu todas as apresentações do “Mujeres de Arena”, fizemos um mês de temporada, ela ia de teatro em teatro porque nos apresentamos em equipamentos culturais municipais, no Centro, Zona Norte e Sul; até que um dia, no final de uma apresentação no Teatro Ziembinski, na Tijuca, ela veio falar comigo que tinha ficado tão tocada com a peça e com a minha interpretação que ela precisava ver várias vezes para poder assimilar tudo e mostrar para os amigos que ela chamava e levava para cada apresentação. Outra vez, no Teatro Gonzaguinha, no Centro, uma senhora que estava aos prantos no final da peça perguntou à minha produtora, Mirian Arce, se poderia falar comigo. Ela veio falar comigo e me disse: "Eu tenho uma sobrinha de 14 anos que mora comigo, ela tem um namorado. Está um calor danado e ela está andando com uma blusa com os botões fechados até aqui (mostrando o pescoço), daí eu abri os botões de cima dizendo que ela ia morrer de calor ... foi quando vi uma marca de cigarro no colo dela, perto do seio. Eu perguntei o que tinha acontecido e ela me disse que o namorado a tinha queimado com o cigarro sem querer. Eu comecei a perceber e vi que esse queimado não sara nunca. Eu vou conversar com ela e vou denunciá-lo. E vou trazê-la para ver a peça para que ela entenda que o que ele sente por ela não é amor. Ela pode entrar sendo menor?" Eu a abracei, dei todas as orientações sobre a rede de apoio às mulheres e falei que sim, que a menina poderia entrar e elas seriam nossas convidadas. Para uma artista como eu, não existe nada mais recompensador do que o retorno espontâneo do público. Eu não faço teatro para o meu umbigo, eu faço teatro para as pessoas, para todas as pessoas, na esperança de ser uma agente transformadora da realidade!”, revelou.

Por conta da pandemia do novo coronavírus (covid-19), o espetáculo não está em cartaz, porém há planos que o mesmo prossiga assim que seja possível retomar as atividades teatrais de forma segura e sem risco de contágio. Embora ainda não haja uma previsão de data para o retorno aos palcos; a artista que reside em São Gonçalo, na Região Metropolitana no Rio, onde inscreveu a sua peça ‘Mujeres de Arena’ para concorrer ao edital de fomento (com recursos federais da Lei Aldir Blanc) vislumbra dias melhores em seu segmento; para que possa continuar passando a sua mensagem contra o feminicídio através das artes cênicas

“Eu vivo exclusivamente do meu ofício, do meu trabalho como atriz e diretora teatral e fui afetada 100% por essa pandemia. Nossas duas últimas apresentações, em março de 2020, foram no Centro Cultural Olido, em São Paulo, através da Secretaria Municipal de Cultura. Nossa produtora lá, a Mari Feil, estava em avançadas negociações para nos apresentarmos no interior do estado mas tudo ruiu; aqui no Rio tínhamos apresentações na "Mostra Mulheres Em Cena", onde estreamos nacionalmente em 2018, e tudo caiu por terra. Mas estou viva e saudável, o que é mais importante agora visto os mais de 4 milhões de infectados e os mais de 137 mil mortos pela Covid-19. A gente reconstrói, ressurge como fênix, eu sou meio craque nisso.”, finalizou Rosite.

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