Literatura | Historiadora de SG discute questões do Brasil através da obra de Monteiro Lobato

Rhaiane Leal analisa obra do autor do 'Sítio do Pica Pau Amarelo' e comenta sobre o racismo e elitismo inseridos em sua criação literária

Enviado Direto da Redação


Por Rennan Rebello



Em tempos de isolamento social por conta da pandemia do novo coronavírus (covid-19), a literatura tornou-se, mais uma vez, uma boa companhia durante momentos de tédios causados pela restrição de sair de casa. Além de ser um bom passatempo, os livros também são alicerces de informação para reflexão do atual momento e de uma projeção de sociedade.



Desta forma, a análise de obras se faz necessária a fim de manter diálogo com outros leitores (cidadãos) para a interpretação dos escritos e trajetória de determinados autores. Em São Gonçalo, o trabalho literário do consagrado escritor paulista Monteiro Lobato (1882-1948), um dos ícones do segmento infanto-juvenil no Brasil, foi analisado pela professora de História e revisora de textos, Rhaiane Leal, 25, ainda durante sua graduação na Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FFP/UERJ), no bairro do Patronato.



A análise culminou em seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) intitulado como: "Urupês e ideias de Jeca Tatu: Monteiro Lobato e o projeto de identidade nacional no início do século XX" e na dissertação "Nacionalismo militante: uma análise da correspondência de Monteiro Lobato e Artur Neiva (1918-1942)", no Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio. Neste último trabalho, a pesquisadora encontrou elementos racistas no trabalho do autor do livro 'O Sítio do Pica Pau Amarelo'.



"Durante a minha monografia eu abordei o Monteiro Lobato por uma perspectiva literária. Seus contos no início do século XX tinham um perfil muito voltado para queixas. Tanto que o seu primeiro de livro, o 'Velha Praga, de 1914, onde ele reclamava das queimadas do 'caipira' no campo, onde adotava o discurso de reclamar sempre do homem do campo com a imagem de atrasado por meio do personagem 'Jeca' Tatu'. O Monteiro Lobtato era latifundiário e tinha fazenda no interior de São Paulo e dialogava politicamente com a classe média branca e elitista do país. No entanto, ele criticava o culto ao estilo francês e defendia que o Brasil precisava mudar neste aspecto. Já na minha dissertação, analisei 180 cartas que ele trocou com Arthur Neiva (político brasileiro e ex-secretário de Interior do Estado de São Paulo)e pude analisar o Monteiro Lobato não apenas como um homem das letras mas também como um político. Ele se engajou pela causa do petróleo e a metalurgia além de analisá-lo como empresário. Monteiro Lobato  passou a escrever livros para crianças porque percebeu que era lucrativo mas escasso no mercado", explicou Rhaiane que teve experiências em sua infância e seu trabalho como agente de leitura como influências para sua pesquisa acadêmica referente ao escritor de Taubaté.




"O Monteiro Lobato sempre esteve presente na minha infância. Eu conheci sua obra através da TV Globo, em 2002, e me encantei com a fantasia em torno do 'Sítio do Pica Pau Amarelo'. E eu associava ao bairro aonde morava em São Gonçalo, no Arsenal, que era bastante arborizado e tinha um campo de futebol, e minha casa apesar de simples era grande e arejada. E eu acabava associando ao sítio com minha residência. Passaram-se os anos e entre os anos de 2014 e 2015 tive o prazer de ser agente de leitura para trabalhar nas escolas municipais de São Gonçalo e passei a ser contadora de histórias e preferi trabalhar com crianças. Após este período, tive como legado o acesso aos livros e durante a graduação tive uma disciplina chamada 'Teoria da História' e conheci o trabalho do historiador Robert Darnton e ele retratava como o conto da 'Chapeuzinho Vermelho' e da 'Cinderela' eram usados pelos antigos regimes e trabalhado com os camponeses na França e na antiga região da Prússia (atual Alemanha) e percebi como a literatura servia de pano político. Como eu não sabia falar muito francês e queria abordar o Brasil, resolvi adotar o Monteiro Lobato, que é considerado o pai da literatura infantil mas na minha pesquisa utilizei os contos adultos que ele escreveu onde abordava questões políticas e sociais", acrescentou a pesquisadora.




Quanto a polêmica referente ao racismo inserido em representações de personagens na narrativa de Monteiro Lobato, que era ligado a movimento de eugenia no Brasil, Rhaiane analisou esta temática para a reportagem de O SÃO GONÇALO



"Na questão social, na minha dissertação, também percebi que Monteiro Lobato era um intelectual que atuava em rede e tinha diversos tipos de contatos, tendo vínculos com médicos, cientistas e políticos da época. Ele também era um influenciador destas redes pois estava sempre escrevendo e publicando. Desta forma descobri a sua participação na Sociedade Eugênica de São Paulo. Sobre a acusação de Monteiro Lobato como racista, para mim não se trata de uma acusação e sim uma afirmação, uma vez que desde 1990 há trabalhos acadêmicos na plataforma da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) que já abordaram o racismo de Monteiro Lobato em suas obras. Na minha concepção, o Movimento Negro não o acusa de racismo mas sim afirma algo que já é algo incontestável. A carta que ele enviou à Artur Neiva em 10 de abril de 1928, da qual analisei, é o ápice desta constatação pois ele coloca seu apoio à Ku Klux Klan (grupo terrorista e racista criado nos Estados Unidos). Além disso, Monteiro Lobato representa o universo africano e negro de forma preconceituosa e estereotipada em suas obras", pontuou a professora, que também explica a importância do estudo crítico  das obras de Monteiro Lobato e da reivindicação por outras narrativas.



"A questão não é tirar o peso do autor Monteiro Lobato em relação as obras em sua vida mas sim, fazer uma reflexão dos personagens negros, sobretudo a Tia Nastácia que é a sua personagem negra mais famosa. E ele a coloca como 'negra beiçuda', 'macaca de carvão', 'negra do Congo' e ignorante.  Na verdade, o Movimento Negro questiona a subalternização do passado colonial e defende novas formas de representações literárias para este mundo lúdico da mulher negra e do negro em geral pois temos o personagem do Saci (Pererê). Será que são estas referências que temos que ter para as crianças negras? Até quando a reprodução da mulher negra será justificada pelo contexto história? Este período não é uma maneira de passar a mão no autor. É importante entender a sua obra como fonte. Na sala de aula, eu vou usar esta obra de 1933 para compreender política, economia e a sociedade e como os homens pensavam mas nunca para dizer que aquilo condiz com o que pensamos hoje. Portanto, o professor precisa ser a ferramenta principal para que os alunos tenham um olhar crítico para qualquer tipo de documento. É importante sempre circunstancializar ", finalizou.



Recentemente a pesquisadora concedeu entrevista, de forma remota, ao programa 'Aulas com Filatelia' com Heitor Fernandes na Web Rádio Censura Livre, de São Gonçalo. Escute, abaixo.

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