Moradores do Rocha, em São Gonçalo, são sucesso na música e na fotografia
Bruno Albert e Pedro Gomes ganham visibilidade nas redes sociais

Por Ana Carolina Moraes*
Bruno Albert e Pedro Gomes são dois exemplos de talentos em São Gonçalo, que já tiveram seus trabalhos reconhecidos tanto pelos ídolos quando pela mídia em outros países. Eles são do bairro Rocha, descobriram a arte muito cedo e resolveram se expressar de diferentes formas, um pela música e outro pela fotografia.
Bruno Albert, de 33 anos, está buscando lançar seu primeiro EP, já tendo lançado algumas músicas nas atuais plataformas digitais de música. Ele começou a ter interesse na música desde bem pequeno, ouvindo os cantores que sua mãe gostava em casa, como Milton Nascimento. Ele disse que o que mais impactou foi a arte da capa.
“Eu era muito fascinado pelas imagens das capas dos discos. Eu ficava olhando a capa do disco Caçador de Mim, do Milton Nascimento, que é muito marcante para mim”.
Mas, quando tinha 19 anos, foi para a faculdade de História da Arte, acabou participando de festivais, com sua antiga banda de rock, o que não foi para a frente. Depois da faculdade, Bruno começou a trabalhar em museus, e se deu conta de o que realmente queria era seguir na música.
“Eu comecei em 2016 (a compor para este EP) porque eu vi que era urgente, já tinha feito banda, trabalhado com educação em museus, já fui orientador de projetos internacionais. Eu já tinha feito várias coisas e para mim era urgente passar pela composição musical que foi de onde eu vim e me encantei, foi o motivo de porque eu quis ir para o mundo das artes".
Foi aí então, que em 2016, ele começou a compor músicas com o violão para seu atual EP. E, em 2018, com o apoio de Hugo Noguchi, que tocou em bandas indies, como a Ventre, Bruno conseguiu gravar em estúdios e conseguir dar vida à suas composições. Conseguiu alcançar os objetivos que tinha em mente, dar vida aos arranjos mentais que tinha construído.
Ele explica porque de todas as artes ele se focou na música: “A música e a criação artística, para mim, são coisas que acabam sendo urgentes. Cada meio tem a sua urgência e eu acredito que nesse momento, a música é o meio de produção mais urgente para mim".
Depois disso, o música já tocou em alguns lugares, como o Teatro Odisseia, o Niterói Shopping, a Casa de Artes Maria Teresa Vieira, o Estúdio MATA, em São Francisco, o Sarau Cultural no São Gonçalo Shopping e o Centro Cultural Paschoal Carlos Magno.
Hoje, o cantor, que toca violão folk, está a ponto de lançar seu EP, que deverá sair no final de outubro, mas seu single Razão já está nas plataformas digitais de música. Ele não define um gênero musical para si próprio, mas acredita que transita entre a mpb, o post grunge e o som alternativo, o cantor tem a inspiração de bandas destes gêneros.
Quando questionado sobre o que Bruno pretende com a música, ele diz: “Ganhar uma visibilidade para estimular pessoas a fazerem mesmo. Comporem o que elas estiverem compondo, independente de suas origens étnicas. Quero me comunicar com o maior número de pessoas possíveis. A música é a arte do encontro, você cantar e se encontrar com muita gente que você não conhece, mas com o tempo, pode conhecer. Ver a interpretação delas com o que você escreveu.”
Os planos futuro de Bruno incluem o Carnavalhame, que é um projeto que sairá no dia 31 de outubro, mas, ele também quer focar na representativa que traz, pois ele acredita que um negro em um ritmo musical que é predominante branco é algo importante.
“Eu, junto com o Hugo Noguchi, estamos tentando levantar o selo da Diáspora, que tem como objetivo abrir os mercados da música para pessoas não brancas. E para pessoas que produzem músicas que não são associadas de maneira comum à suas origens."
A história de Pedro Gomes, de 22 anos, se liga com a de Bruno. Os dois são irmãos e cresceram na arte juntos. Pedro teve seu primeiro contato com a produção de fotos em 2014, quando já produzia pinturas e filmes de forma amadora, mas começou a pensar em exercer a profissão de fotógrafo em 2014, com 16 anos.
“Eu sabia que eu gostava de fazer retrato. Comecei a fotografar pessoas próximas de mim, minha família e meus amigos". Nesse mesmo ano, Pedro se especializou na área e decidiu que queria produzir editoriais de moda.
Já em 2015, com apenas 17 anos, ele teve sua primeira publicação na Vogue: “A Vogue tem um espaço de submissão de trabalho, então foi quando comecei a enviar o meu material para eles. O nível da curadoria de aprovação de publicação é rigoroso. Então, foi uma surpresa enorme", completou.
Depois disso, o fotógrafo só cresceu. Além de participar de trabalhos junto com Bruno no Museu do Amanhã, ele já teve publicações em revista em Portugal, na África do Sul, na França e no Brasil, além de ter um artigo falando de seu trabalho no site Afropunk, que fala sobre trabalhos de negros e é um site dos Estados Unidos. Ele acrescenta que o “online é a sua principal base atualmente".
Mas, para além da internet, ele tem trabalhos que foram expostos também no Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos e no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), os dois em 2018.
Mas, o grande divisor de águas para Pedro, que também é formado em Turismo, pela Universidade Federal Fluminense, foi a criação de seu estúdio no Rocha, que aconteceu em abril deste ano. “Para conquistar o meu estúdio foi muito suor, muito trabalho para chegar aqui.” Pedro, hoje, tem mais de 32 publicações em diversos locais.
Graças ao estúdio, o fotógrafo conseguiu ir para São Paulo e conseguiu ter mais contatos no mundo da moda lá. Ele também começou a ter seu projeto Pangeia. “Foi uma nova fase, uma fase de descoberta. Eu tenho tido um retorno pavoroso em relação ao que eu tinha antes. Eu tive um amadurecimento muito grande.”
Sobre o Pangeia, ele conta que a ideia foi de Fabiana Pernambuco e Silvia Medeiros, três jovens negros de São Gonçalo. “Nós já tínhamos contato com o mercado da moda, mas não nos sentíamos pertencentes à ele, que é majoritariamente branco. Criamos o Pangeia para poder nos sentir pertencentes a esse mercado, com produções inteiramente negras, como resposta a essas sensações que sentíamos.” O projeto já teve mais de 1,3 milhões de visualizações no Twitter.
Com relação aos projetos futuros, Pedro está focado no Pangeia e pensa em simplesmente querer levar sua voz: “"uero continuar crescente como fotógrafo. Quero ser uma referência mas não só pelo meu trabalho, mas como pessoa. Quero ser um exemplo para pessoas como eu, uma inspiração. Somos (negros) capazes de produzir como qualquer outra pessoa”.
Estagiária sob supervisão de Cyntia Fonseca*