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Professora usa caranguejos para estimular criatividade em crianças autistas

O projeto acontece em uma escola da rede municipal de Itaboraí e foi inspirado na saga de livros do autor gonçalense Erick Bernardes

relogio min de leitura | Lucas Luciano 05 de maio de 2023 - 13:26
Livro 'Cambada' virou a base de trabalho da professora
Livro 'Cambada' virou a base de trabalho da professora -

Caranguejo. Para muitos, pode ser só mais um animal bonito de ser fotografado e que é comumente cozido na carne, farofa e molho. Mas essa não é a visão de Cleidiane Montel. Para a educadora de 42 anos da rede municipal de Itaboraí, o caranguejo simboliza a criatividade, o lúdico e, também, uma oportunidade de contar boas histórias. 

Foi a partir dessa ideia que nasceu o seu projeto na Escola Municipal Prefeito João Baptista, destinado inteiramente à educação de crianças especiais. Essa história, no entanto, não começou em Itaboraí, mas sim em uma pequena cidade no interior do Pará, chamada Conceição do Araguaia. Na verdade, se for para ser específico, tudo começou mesmo com um convite. 

Cleidiane trabalhava em uma lanchonete na época. Um certo dia - já pela noite - entrou no estabelecimento um casal conhecido pela, até então, estudante do 8ª ano do fundamental. Era o presidente da APAE, a Associação de pais e amigos dos excepcionais, descrito por Cleidiane como um “ser humano sensacional". Ele foi ao encontro dela e, para sua surpresa, a fez um convite irrecusável naquele momento: cuidar de crianças com necessidades especiais. 

Mesmo com medo, Cleidiane largou tudo para encarar essa nova experiência. Logo nos primeiros dias, entretanto, ela se viu diante de um grande desafio. "Como posso ensiná-los?”, pensou. Foi aí que o lúdico começou a aparecer na vida da professora. Ela criou atividades para estimulação, criatividade, raciocínio lógico e, assim, aos poucos, conquistou a admiração das crianças.

Isso durou por alguns anos, até a educadora se mudar com a família para Tanguá, no Rio de Janeiro. Lá, devido às dificuldades financeiras, ela volta a trabalhar em uma lanchonete. Porém, dessa vez não demorou muito para Cleidiane perceber que não estava onde queria estar. Numa certa ocasião, decidida, ela sai do trabalho, pega um ônibus e - mesmo sem ser convidada - corre atrás do próximo “convite”.

A procura a leva até a Associação Pestalozzi de Tanguá. Após ser aceita pela diretora, Cleidiane volta a viver seu sonho e ganha uma nova turma. Mas essa, diferente da primeira que trabalhou, necessitava de uma abordagem diferente. Por serem crianças de cadeira de rodas, com dificuldade para falar e se expressar, a professora escolhe apresentar o lúdico com uma outra roupagem.

Assim, algum tempo depois, esses estudantes que outrora eram pouco participativos ganham o título de “turma mais bagunceira” da instituição. “Comecei a trabalhar a estimulação neles: o descobrir, o pertencer, resgatar sorrisos. Quis ensinar que podemos muito mais do que somos ou do que fazemos. Treinei, também, a coordenação motora, a leitura visual, reflexologia, entre outros estímulos”, comentou. Também nesse período, ela ganha o apelido que viria acompanhá-la pelos próximos anos: Tia Cleide.

Nesse meio tempo, Cleide conheceu a saga de livros ‘Cambadas’, do professor e escritor gonçalense Erick Bernardes. Ela se apaixonou pela obra. “Fiquei encantada pela forma que o Erick, através das crônicas, retratava os caranguejos como fonte de coragem, criatividade e coletividade. Vi que podia usar isso no meu trabalho”, compartilha.

Encorajada, a professora começou a se especializar em Terapia Ocupacional e participou do processo seletivo da Escola Municipal Prefeito João Baptista - onde trabalha atualmente. A partir da sua experiência e das crônicas do ‘Cambadas’, Cleide deu início ao seu projeto com crianças portadoras de Transtorno do Espectro Autismo (TEA). Isso, claro, sem deixar de lado o lúdico. 

“Meu projeto está todo baseado no material do professor Erick, porque abrange a nossa região, além de ser completo. Fala de língua portuguesa, meio ambiente, valores como pessoa, questões emocionais, entre outros. Com isso, trabalho a parte lúdica com as crianças por meio de histórias”, explica. 

Sobre o projeto

O trabalho, segundo a professora, consiste em fazer eles imaginarem suas próprias histórias usando os caranguejos como personagens principais: a espécie, a pele deles, o que comem, e como são fontes de renda para inúmeras famílias. 

“Eu utilizo os espaços onde a criança perde o foco e interesse e, lá, faço a minha intervenção. Uso a criatividade para atuar com eles de forma que não venha deixar de somar para o aprendizado da criança. Nós trabalhamos com massinhas, com tintas guaches, com expressão corporal. É o máximo!”, enfatiza Cleide. 

E foi dessa interação lúdica e criativa com as crianças que o nome do projeto nasceu. Quando uma aluna - durante a aula - leu a capa do livro e perguntou em voz alta para a turma toda ouvir: “Tia Cleide, a gente cria laços com a cambada?”. Emocionada pela profundidade da pergunta, Cleide viu que o nome não poderia ser outro, a não ser ‘Criando Laços com os Cambadas’.

Esses laços, conforme afirma a educadora, são o que os ensinam a desenvolver amor, solidariedade, humanização, senso de pertencimento e os transformam em cidadãos do bem. 

“Eu lembro quando um aluno meu pegou aleatoriamente o livro e me perguntou: ‘Tia, cadê o corpo do caranguejo?’ Nessa hora minha mente acelerou. Imediatamente pedi licença para a professora e levei o grupo para a biblioteca e lá pude explicar sobre os caranguejos. Percebeu a visão dele? Ele viu somente as garras do caranguejo e nada mais. Ali eu percebi que eles estavam crescendo, observando que se tem garras, tem que ter corpo também. Sei lá, os estudantes são tão pequenos e já possuem uma infinidade de frustrações e sofrimentos que a vida já lhes trouxeram. Só espero conseguir despertar o lado gentil, cuidadoso, amoroso e o olhar cuidadoso em cada um”, conclui Cleidiane Montel.

*Estagiário sob supervisão de Thiago Soares

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