Sesc São Gonçalo recebe peça 'Revolução da América do Sul'
Obra mais importante de Augusto Boal realiza circulação em unidades do SESC com ingressos populares após 62 anos da montagem original

Após uma temporada virtual, que lhe rendeu a indicação na categoria Jovem Talento - Elenco no 16º Prêmio APTR de Teatro, a peça “Revolução na América do Sul” faz sua estreia presencial levando o clássico de Augusto Boal a unidades do Sesc-RJ pelo Edital de Cultura Sesc RJ Pulsar 2021/2022.
Com apresentação dia 16 de julho às 19h no Sesc São Gonçalo e dia 05 de Agosto às 19h no Sesc Niterói, a montagem volta aos palcos 62 anos após sua primeira encenação sob as bênçãos da viúva do dramaturgo, Cecília Boal - que convidou Wellington Fagner para dirigir o texto.
Apresentando o operário José da Silva, um representante do povo que mergulha em uma viagem nas contradições de um Brasil injusto à procura de uma solução para a fome que o devora, a dramaturgia que inaugurou o teatro épico sob a perspectiva dialética chega à contemporaneidade sob o olhar do dramaturgista Wellington Júnior.
“Poder circular com esse trabalho por todas as regiões que o SESC está nos possibilitando é alcançar uma das nossas maiores metas de fazer essa obra do Boal chegar ao trabalhador. Um dos maiores objetivos desse espetáculo é que ele possa romper essa ‘fronteira’ de ‘teatro zona sul carioca’. Que a peça aconteça também na zona sul, mas que alcance as regiões mais periféricas, as cidades ‘dormitórios’, como algumas são conhecidas, onde os trabalhadores vão só para dormir, preparar a marmita e voltar ao trabalho - o que é a realidade da maioria do nosso grupo, pois somos periféricos e favelados, a maioria da Baixada Fluminense. Então é com esse público que nós queremos falar, que são os grandes protagonistas desse espetáculo”, comemora Fagner.
Uma das primeiras peças nacionais a colocar a classe trabalhadora no centro da cena sob a ótica da luta de classes, Junior traça um paralelo entre a realidade da época e a de então. “Se a classe trabalhadora hoje não é idêntica àquela existente em meados do século passado, ela também não está em vias de desaparição, nem ontologicamente perdeu seu sentido estruturante. A cena teatral contemporânea traz as questões urgentes do hoje, mas sempre em fricção com o passado. Este texto é um clássico da dramaturgia política brasileira e, como todo clássico, está sujeito às novas temporalidades. Boal é nosso Shakespeare com a língua dos três ‘P’ - popular, político e poético”, analisa.
Iniciando a circulação com a imensa alegria de terem o reconhecimento do Prêmio APTR, recebendo a indicação na categoria “Jovem Talento” pelo elenco, Fagner celebra o momento conjunto de circular com a peça justamente após a indicação. “Sabemos da importância da APTR no nosso setor, principalmente nesse momento de pandemia. Torcemos para que essa indicação da APTR juntamente com essa circulação incrível do SESC possibilitem o trabalho chegar ao maior número de pessoas”, torce o diretor.
Nesta montagem fazemos um deslocamento dramatúrgico, uma atualização da obra, entendendo que o texto pode ser datado, mas a encenação não. Enquanto a montagem dialoga com a original revelando o olhar dissidente dos que veem o mundo através dos escombros da margem, a encenação intenciona o mundo do trabalho dos anos 1960 e o processo contínuo de precarização da mão de obra trabalhadora. “A reescritura do texto foi realizada a partir de um processo colaborativo em que o elenco tenciona as imagens presentes na dramaturgia de Boal com as referências de uma sociedade precarizada em um capitalismo de guerrilha”, adianta Fagner.
Das mesmas regiões periféricas apresentadas no texto, onde vivem os trabalhadores que sustentam os privilegiados da sociedade desigual, saiu o convite de Cecília para a montagem, realizada pelo Instituto Augusto Boal (IAB). “Depois de uma parceria com a Fábrica dos Atores, escola livre de teatro que resiste há 20 anos em Nova Iguaçu onde eu e três atores do elenco fazemos parte, Cecília nos fez a proposta. Como eu estava em processo do meu TCC na Uni-Rio, iniciamos uma pesquisa lá com orientação de André Paes Leme. A Uni-Rio foi fundamental. Agora, montamos o espetáculo para o mercado. Não só pelo convite, mas também pela identificação com a obra de Boal”, pontua Fagner.
“O avô Jesael, a avó Josefa, Josélia, os Josés, quantos deles não conhecemos pela vida? E que vivenciam as consequências geradas por um sistema desigual e cruel? A peça revela as engrenagens que resultam na fome e morte de José, assim como o interesse de Zequinha e a frivolidade de políticos diante de uma realidade difícil e opressora. A peça escrita por Boal se aproxima dos dias atuais, pois o sistema continua o mesmo, mas vestido de novas facetas. O trabalho árduo das fábricas está agora próximo do exaustivo pedalar dos entregadores de aplicativos, os autônomos, que ganham uma nova roupagem através das tecnologias. Boal nos lembra que ‘José é mais um que morreu, mas nós ainda não’ e nos alerta e questiona de que, se a vida é agora, o que podemos fazer para mudar essa realidade?”, questiona a atriz Nathalia Cantarino.
Colocar a questão social acima dos dramas individuais, fazendo do palco um lugar que reconhece as vozes dos inconformados, foi o pretexto. “No espetáculo pensamos sobre este novo mundo do trabalho, onde existe um mascaramento de relações assalariadas, que assumem a aparência do trabalho do empreendedor (o famoso MEI), assim como as modalidades de trabalho intermitente. Os direitos desaparecem e isso faz com que a degradação da vida no trabalho no capitalismo do nosso tempo chegue a um patamar que se assemelha, em plena era informacional-digital, à era da revolução industrial”, ressalta Fagner.
Entre tantos desejos da montagem está o de confrontar os discursos oficiais da historiografia. “A paródia e o jogo do cômico são elementos da linguagem da cena que estruturam possibilidades de uma outra forma de contar a história do Brasil. A fome ainda persiste e o capital especulativo domina o país. Temos muito dinheiro, mas não temos a distribuição da renda. Talvez uma grande mensagem desta montagem, formada por artistas, em sua maioria, moradores das regiões periféricas do Rio de Janeiro, será a que nós vamos morrer de fome. Nossa classe passou quase um ano para conseguir um auxílio emergencial. É o retrato de uma política pública que realmente não entende a necessidade da arte e de seus artistas. Mas a grande mensagem é que nós, artistas, estamos vivos - e vamos resistir muito”, encerra Júnior.
Sinopse
O clássico de Augusto Boal ganha nova montagem 62 anos após sua primeira encenação apresentando o operário José da Silva, um representante do povo que mergulha em uma viagem nas contradições de um Brasil injusto à procura de uma solução para a fome que o devora.
Serviço
“REVOLUÇÃO NA AMÉRICA DO SUL” / TEMPORADA SESC PULSAR
SESC São Gonçalo
DATA: 16 de Julho
HORÁRIO: 19h
ENDEREÇO: Av. Pres. Kennedy, 755 - Estrela do Norte - São Gonçalo
SESC Niterói
DATA: 05 de Agosto
HORÁRIO: 19h
ENDEREÇO: Rua Padre Anchieta, 56 - São Domingos - Niterói
INGRESSOS:
R$ 10 (inteira)
R$ 5 (meia-entrada)
Gratuito – PCG e Credencial Plena
FICHA TÉCNICA:
Texto: Augusto Boal
Direção Geral: Wellington Fagner
Dramaturgismo: Wellington Junior
Atualização de texto: Cássio Duque, Junior Melo, Letícia Ambrósio, Levi Duarte, Maria Azevedo, Nathalia Cantarino, Ritiele Reis, Wellington Fagner e Wellington Junior
Elenco: Cássio Duque, Junior Melo, Letícia Ambrósio, Levi Duarte, Maria Azevedo e Ritiele Reis
Direção Musical: Vinícius Mousinho
Letras das Canções: Francisco de Assis
Cenografia: Malu Guimarães, Letícia Magalhães e Sofia Magalhães
Figurinos: Lara Bezerra
Assistente de Figurinos: Mariana Faria
Costureiras: Vicentina Mendes da Silva
Visagismo: Fellipe Estevão
Iluminação: Ricardo Rocha
Design Gráfico: Samuel Santiago
Fotografia: Josélia Frasão
Assessoria de Imprensa: Marrom Glacê Assessoria – Gisele Machado & Bruno Morais
Produção: WDO Produções
Direção de Produção: Wellington de Oliveira
Produtora Executiva: Pedro Barroso
SOBRE AUGUSTO BOAL
Augusto Boal (1931-2009) foi um dos dramaturgos que mais contribuiu para a criação de um teatro genuinamente brasileiro e latino americano. Desde os primórdios de sua carreira, no teatro de Arena, até o Teatro do Oprimido, técnica que o tornou mundialmente conhecido, passando pelas Sambóperas, sua preocupação foi a de criar uma linguagem que pudesse traduzir a realidade do seu país, uma maneira brasileira de falar, sentir e pensar. Essa preocupação imprime ao seu trabalho uma dimensão política e social, concebendo o teatro como instrumento de transformação alicerçada na temática e na linguagem. Todos os passos percorridos por Boal foram marcadas pelo seu espírito investigativo e sua preocupação política: o teatro como resposta às questões sociais; o teatro como meio de analisar conflitos e apresentar alternativas. É autor de diversas obras literárias publicadas em vários idiomas e recebeu, durante sua vida profissional, um arsenal extraordinário de prêmios e honrarias. Rememorando os 13 anos de saudades de Augusto Boal, a prática de montagem Revolução na América do Sul com direção de Wellington Fagner homenageia seu legado artístico e intelectual através de um espetáculo que dialoga com seu principal texto teatral.