“Histórias que o futebol transformou”: Projeto Gerson encaminha alunos para a vida profissional
Niteroiense Michel é ex-aluno e com ajuda de professores e familiares, hoje joga profissionalmente nos EUA

*Por Luana Brandão
Michel, de 20 anos, foi aluno do Projeto Gerson, em Niterói, e sempre sonhou em ser jogador profissional. Com o bom desempenho nos torneios internos, decidiu participar de uma ‘peneira’ para jogar no Botafogo. Com a aprovação, sua vida hoje se encaminha para a conquista do sonho. O Instituto Canhotinha de Ouro ajuda os alunos a serem encaminhados para a vida profissional.
O menino Michel Costa da Silva começou no futebol aos 11 anos. Em uma conversa com O São Gonçalo, ele conta que, mesmo nascido em 2001, foi o único a ser aprovado na ‘peneira’ que era para meninos de 1998/1999. O jogador, que sempre sonhou em fazer a carreira no esporte, com o incentivo da mãe da filha, já treinou no Botafogo e na Seleção Brasileira. O jovem falou um pouco sobre sua história.
“Minha trajetória no futebol começou aos 11 anos, eu fazia parte do projeto Canhotinha de Ouro (Gerson), e já sonhava em me tornar um jogador. Eu então tive a oportunidade de participar de uma peneira de futebol. Fui o único que passei e tive a oportunidade de engrenar na base do Botafogo, onde fui feliz e me doei ao máximo, um clube que me abriu portas e me deu coisas que nunca imaginei conquistar, e hoje, jogo no Estados Unidos, no New England Revolution 2", contou o rapaz.
Jocelaine Costa dos Santos é mãe de Michel e conta que desde os 8 anos, o menino participava de campeonatos na comunidade do Morro do Palácio, em Niterói. Ao vê-lo jogando bem, decidiu inscrevê-lo no Projeto Gerson. A partir daí, surgiu o convite para fazer a ‘peneira’ no Botafogo. Ela conta que por algumas vezes passou por sufocos, ocasiões em que os jogos eram distantes e, tendo que trabalhar, não podia acompanhar o filho, além da questão financeira para sustentar as passagens.
A mãe do rapaz relembra que teve a certeza de que ele faria sucesso quando em uma entrevista de emprego, foi questionado sobre a profissão que queria seguir, Michel respondeu “vou ser jogador de futebol”, no entanto, foi questionado sobre uma carreira ‘real’, e ele respondeu, com um sorriso no rosto, decididamente “vou ser jogador de futebol e estou correndo atrás pra isso”. Desde então, ela e a família incentivam as decisões de Michel.
Em dezembro de 2020, o contrato com o Botafogo seria encerrado e o rapaz recebeu duas propostas para morar nos Estados Unidos. A partir disso, decidindo com familiares, a mãe diz que ficou com o coração apertado, mas sabia que seria uma boa escolha: “É mais um degrau de subida na carreira dele”, diz Jocelaine. A mãe conta que para mudar a vida, Michel precisou pedir dinheiro de passagem emprestado e conseguiu a quantia necessária. No início de abril deste ano, a mudança estava feita. Atualmente, ele mora nos Estados Unidos com um amigo, que também joga no mesmo clube.
Jocelaine conta a história do filho com orgulho:
“É uma alegria e uma novidade, mas bate um desespero porque não é só pegar um ônibus e chegar lá [...] Às vezes a saúde bate, dá vontade de chorar, mas por outro lado, eu vejo que foi a melhor decisão da vida dele pois sei que a carreira dele vai ser reconhecida, assim como no Brasil", revela.
Ao final, ela complementa: “Mesmo eu sendo mãe solteira, eu vejo o orgulho na minha cara.”
Projeto para mudar vidas
O ex-jogador e comentarista de esportes, Gerson ‘Canhotinha de Ouro’ é natural de Niterói. Apesar de ter se aposentado há muitos anos da carreira de atleta, criou, na cidade, um grande projeto para incentivar meninos e meninas à prática de esportes e auxiliar na orientação de suas vidas profissionais. O objetivo é promover a educação e a inclusão dos alunos, com um foco eminentemente social.
Gerson conversou com O São Gonçalo e relembrou que após finalizar sua vitoriosa carreira como jogador, sentou junto do então prefeito de Niterói, Jorge Roberto Silveira para falar sobre a ideia de criar o Projeto. Gerson relembra que a ideia sempre foi voltada para o social, com o objetivo de manter as crianças estudando, pois somente assim poderiam se inscrever. Além disso, Gerson fala que a ajuda também contava com lanches oferecidos para os alunos; antes da pandemia, cerca de 40 deles eram levados para uma ‘rodada de pizza’ no restaurante 7 grill, parceiro da ação.
“A ideia era essa, pegar as crianças das comunidades, principalmente, colocá-los no colégio, estudando, que é a única coisa que o Projeto exige desde o começo. Tem que estar na escola. Principalmente, tirar essa ociosidade da criança", contou o ex-jogador, que eu seu currículo, tem passagens marcantes, como jogador da Seleção Brasileira tricampeã, no México, em 1970, e também pelo Flamengo, Botafogo, Fluminense, no Rio de Janeiro, e o São Paulo.
Ao falar da ação, agradece ao prefeito de Niterói, Axel Grael, que segue apoiando a campanha e também a Eduardo Oliveira, que é coordenador da juventude. Os profissionais que trabalham com os alunos são ex-jogadores e profissionais de Educação Física. Atualmente, existem 10 núcleos de treinos na cidade e a meta é criar mais outros 4.
“A ideia começou assim, exatamente a parte social e fazer dessas crianças, cidadãos. Essa é a nossa meta, a nossa história e graças a Deus nós temos o reconhecimento tanto das autoridades quanto, principalmente, desses pais dessas crianças. E isso é muito gratificante", enfatizou.
Patrícia é presidente do Instituto Canhotinha de Ouro e filha de Gerson. Ela e o marido Ricardo, cuidam do Projeto criado pelo pai. Ela contou como funciona o Projeto Gerson. Ela e o pai realizam visitas periódicas aos núcleos de treinos e mantém contato direto com os familiares dos alunos.
Em um campeonato interno realizado anualmente, olheiros e diretores de categorias de base são convidados para assistirem as finais desses torneios, e quando meninos e meninas são convocados para jogar nos clubes, o Projeto também ajuda os responsáveis na área jurídica. Mas o futebol e a ajuda nas negociações não são os únicos ‘benefícios’ dos alunos. Quando inscrito no Projeto, o atleta tem direito a atendimento odontológico e médico, além de passeios culturais, organizados e orientados por funcionários e professores.
Para ser um aluno do Projeto Gerson, que atende crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos, o único requisito é estar matriculado em uma escola da rede pública. Caso o aluno não esteja, o Projeto também o encaminha para uma unidade escolar, por meio de uma parceria com a Fundação de Educação de Niterói e a Secretaria de Educação (políticas públicas para juventude), sendo assim, pode ingressar no trabalho do Instituto.
Nas palavras da presidente, ela comenta sobre o orgulho que sente da transformação do esporte na vida de seus alunos. Patrícia, na conversa, reforça o foco na ajuda social do trabalho do Projeto, que também atua de maneira inclusiva para crianças carentes, PCDs e autistas.
“Nossa satisfação é que eles caminhem pelo lado profissional (do futebol, ou não), mas que caminhem pelo lado certo. Esporte tem isso, é instrumento de transformação", diz a advogada.
Assim como a história de Michel, que se tornou jogador profissional, também existem outros alunos que correram atrás de seus objetivos por meio de incentivo da ação. Algumas meninas jogam hoje em grandes times, como Vasco e Palmeiras, além de serem convocadas para jogar na Seleção Brasileira. Além desses alunos, outros se tornaram médicos, engenheiros, professores e diretores de rádio, com futuros brilhantes pela frente.
Patrícia reafirma a satisfação que é ajudar os alunos, além de se mostrar grata pela melhora de vida deles. “Essas são histórias que o futebol transformou, melhorou, modificou... A melhora na vida daquela criança é nosso maior orgulho", finalizou a presidente.
*Estagiária sob supervisão de Sérgio Soares.