Prefeitos da região pedem a volta das obras do Comperj

Cerca de seis mil pessoas seguiram para o Centro do Rio na manifestação com pedido do retorno das obras do Comperj, em Itaboraí
Foto: Leonardo FerrazMaria, José, Ana e Pedro. Ontem, todos eram um em busca de um bem comum: a retomada das obras no Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj). Delegações do Consórcio Intermunicipal do Leste Fluminense (Conleste), entre elas São Gonçalo, Itaboraí, Niterói e Rio Bonito reuniram mais de seis mil pessoas para protestar contra o sucateamento do Comperj. Um abraço simbólico ao prédio da Petrobras, na Avenida Chile, no Centro do Rio, marcou o ato “Juntos Pelo Comperj-Refinaria já!”.
Ao todo, 13 prefeitos aderiram ao protesto. Com carro de som, camisas que faziam alusão ao evento e apitos, os manifestantes se concentraram em pontos distintos das cidades e seguiram, em sua maior parte, usando as barcas para o Centro do Rio, e seguiram em manifestação até a Petrobras.
O objetivo do ato era pressionar a empresa para terminar, pelo menos, uma das duas refinarias previstas para o Comperj. A refinaria já está com 82% das obras concluídas, mas de acordo com o plano de negócios, a refinaria (Trem 1), só será concluída com parcerias internacionais, mas ainda não tem prazo definido.
Helil Cardozo, presidente do Conleste e prefeito de Itaboraí, disse que as cidades impactadas pela paralisação das obras do complexo vão manter a cobrança pela conclusão de, pelo menos, uma das refinarias. Durante o ato, uma comissão de três prefeitos, dois deputados estaduais, um federal e três sindicalistas, foi recebida pelos gerentes do Comperj, Flávio Fernando Casanova e Walter Shimura, na sede da companhia. No entanto, o encontro desagradou os representantes do movimento, uma vez que nenhuma posição foi dada a respeito do cronograma cobrado pelos prefeitos. Os executivos prometeram agendar nova reunião dentro de 30 dias.
“Não estamos satisfeitos, queríamos ser recebidos pelo presidente da Petrobras, e não por dois gerentes, como ocorreu”, disse Helil Cardozo. “Vamos continuar protestando e realizando atos como esse até que uma definição aconteça e essa obra recomece. Nós aderimos ao movimento porque a sociedade quer o retorno das obras. Não apenas o prefeito quer. É um manifesto que não tem partido. Estamos em busca da empregabilidade e da estabilidade da economia”, explicou Helil Cardozo.
O prefeito de São Gonçalo, Neilton Mulim, também participou da causa. Segundo ele, a continuação das obras do Comperj é importante para a volta do equilíbrio econômico da região. “O Comperj foi um grande sonho cujo governo federal investiria mais de R$8 bilhões, o maior investimento do país na área de refinaria e petróleo e, de repente, se frustrou em função das paralisações das obras. Com isso, as cidades começaram a passar por problemas maiores do que antes. Temos a modificação da densidade demográfica e, com isso, o aumento da violência em função do desemprego, uma tragédia econômica na região”, declarou Mulim.
O prefeito de Niterói, Rodrigo Neves, disse que a cidade se solidarizou com o atual momento vivido pelos municípios vizinhos. “O que acontece nos municípios vizinhos se reflete em Niterói e vice versa. É um ato de solidariedade às famílias de trabalhadores. A grande maioria das empresas da área naval dessa região sequer é citada nesse processo da Petrobras. Que as pessoas que cometeram erros sejam punidas e que empresários e trabalhadores honestos possam pleitear, disputar, participar e contratar para gerar a empresa na nossa região”, explicou.
O governador Luiz Fernando Pezão reafirmou o compromisso de ajudar os municípios afetados. “Renovamos os nossos incentivos fiscais para que a Petrobras possa procurar investidores e estou fazendo tudo que está ao meu alcance para ajudar os municípios do Comperj. Tenho tentado ajudar os prefeitos. Já me reuni com eles e estou sempre à disposição”, afirmou o governador durante o Primeiro Fórum de Valorização dos Municípios do Rio de Janeiro, que discutiu alternativas à crise econômica, em Macaé.
Petrobras – Em resposta, a assessoria de imprensa da empresa respondeu que conforme o Plano de Negócios e Gestão 2015-2019 da Petrobras, as obras da central de utilidades do Comperj, que irá suportar a partida da unidade de processamento de gás natural (UPGN), estão em andamento. Esse conjunto de unidades está previsto para entrar em operação em outubro de 2017. Quanto ao projeto da Refinaria Trem 1, a Petrobras está estruturando um modelo de negócios e afirma, ainda, que as obras não estão paralisadas.
Protesto teve princípio de tumulto
Um esquema especial de trânsito foi montado. Apesar da CCR Barcas ter disponibilizado mil passagens de ida e volta, cerca de 60 ônibus seguiram para o Rio pela Ponte Rio-Niterói. Na rampa de descida da Ponte Rio-Niterói, sentido Centro, um grupo de manifestantes desceu dos coletivos e ateou fogo em objetos. O trânsito foi interditado no trecho por, aproximadamente, 40 minutos.
Devido a manifestação, a linha Praça XV-Araribóia funcionou em esquema especial com barcas extras para atender a demanda.
Sindicatos e entidades apoiam a manifestação
O ato, que coincide com a data de aniversário de 61 anos da morte do presidente Getúlio Vargas, fundador da Petrobras, reuniu, ainda, trabalhadores, comerciantes, sindicatos envolvidos nas obras do Comperj, OAB, entre outros.
O Comperj ocupa uma área de 45 km² e tem como objetivo estratégico expandir a capacidade de refino da Petrobras para atender ao crescimento da demanda de derivados no Brasil, como óleo diesel, nafta petroquímica, querosene de aviação, coque e GLP (gás de cozinha). No seu novo plano, a empresa adiou de 2016 para outubro de 2017, o início da operação da central de utilidades do Comperj, que inclui geração de energia elétrica e vapor e para tratamento de água e efluentes. Hoje, cerca de seis mil trabalhadores atuam nas obras. Há um ano, eram 16 mil.
As cidades da região sofreram com a redução no ritmo das obras e o que deveria ser um projeto que alavancaria o crescimento da região se tornou um problema econômico e social. “É um momento de união de todos os trabalhadores, pois centenas de famílias estão passando necessidades, agora, em função da irresponsabilidade de uma minoria. O que estão fazendo com o Comperj é ilegal, imoral e só engorda o bolso de poucos”, afirmou o presidente do Sintronac, Rubens dos Santos Oliveira.
A Câmara dos Dirigentes Lojistas de Niterói (CDL) também participou da mobilização em defesa do setor naval. “Essa mobilização serve para colocarmos nossa bandeira para fazermos uma reversão do plano de desenvolvimento da Petrobras (2015-2019), que não contempla nenhuma empresa de Niterói. Essa é a grande pegada desse movimento de hoje (ontem), para que a Petrobras possa direcionar vários contratos que estão sendo feitos fora do país. Nós temos condições para isso”, afirma Fabiano Gonçalves, presidente da CDL.
Cidades passaram por transformações
Rosane Lucena, de 54 anos, foi uma das comerciantes de Itaboraí que, por causa da crise financeira, teve que diminuir seu efetivo de funcionários de 27, para 11. Não só ela, mas os outros seis mil manifestantes acreditam que o retorno da construção do Comperj melhoraria as condições de vida de quem mora no Leste Fluminense. A comerciante liberou seus funcionários e levou todos para a manifestação.
“Se as pessoas tivessem consciência de como a economia está abalada e do quanto a volta do Comperj ajudaria na recuperação, estariam todas aqui. Hoje, você vê pessoas dormindo na rua de Itaboraí, que não conseguiram voltar para os seus estados por não terem condições após perderem seus empregos do Comperj”, contou Rosane.
Mesmo sem saber, o caso citado por ela acontece com José de Mattos da Silva Junior, 37, que veio da Bahia com a esperança de um futuro melhor. “O Comperj era uma luz no fim do túnel e hoje virou um trem vindo ao contrário. Moro de favor na casa das pessoas. Não tenho como voltar para casa e todas as esperanças se frustraram”, explicou José.
A dona de casa Maria José Álvares, 38, disse que resolveu participar do movimento para pedir um basta à corrupção. “Não aguento mais tanta corrupção. Estamos todos unidos em busca de um país melhor”, contou.
