Porto da Pedra leva a melhor no primeiro dia de desfiles na Sapucaí. Alegorias prejudicam Cubango

'Tigre' faz a diferença, no primeiro escalão, seguido do escola de Niterói e Unidos da Ponte

Enviado Direto da Redação


* Textos : Ari Lopes, Ana Carolina Moraes, Sérgio Soares e Thalita Queiroz - Fotos Leonardo Ferraz 



Está aberta a temporada na Marquês de Sapucaí, o palco maior do samba no Rio de Janeiro. Em uma noite chuvosa, de altos e baixos na pista de desfiles, e muitas críticas no âmbito político. Sete escolas se apresentaram entre noite de sexta-feira (21) e a madrugada desse sábado na histórica arena de desfiles da Praça 11. Pode-se de dizer que na primeira noite, a Porto da Pedra honrou as tradições e se destacou, como uma apresentação emocionada e de extremo bom gosto, superando a Cubango e Unidos da Ponte, outras melhores da noite, por conta de problemas que a escola de São Gonçalo não teve e que certamente farão falta na briga pelo título. 


As outras quatro desfilantes, - Acadêmicos de Vigário Geral, Rocinha, Renascer de Jacarepaguá e Império Serrano, diga-se de passagem, tiveram apresentações com menos luxo e imponência, e mais problemas. A começar pela chuva, que 'atravessou', literalmente o samba e afastou o público da Sapucaí, deixando arquibancadas vazias em alguns setores. Mas entre erro e acertos, noite tem tudo para ser esquecida mesmo para o Império Serrano, que se no passado, foi um dos 'gigantes' da folia na Sapucaí, deve amargar os piores dias da sua bela história no Carnaval. 



A escola do Morro da Serrinha, em um momento de grave crise política e financeira, atravessou a Sapucaí com alas e fantasias inacabadas, como a das baianas. Algumas delas choravam na hora do desfile, num prenúncio que a agremiação é forte candidata a parar na Série B, na Estrada Intendente Magalhães, na segunda queda consecutiva, já que no Carnaval de 2019, foi rebaixada como a  'lanterninha' do samba.



Só mesmo um milagre deixa a verde e branca do Morro da Serrinha na Série A, porque a segunda noite de desfiles para essa noite, tem agremiações que vem com muita sede ao valioso pote que credencia apenas uma escola - no caso a campeão - para o seleto Grupo Especial, no Carnaval de 2021. A começar pela favoritíssima Império Serrano. A tradicional escola de Ramos foi buscar no enredo sobre e a vida e a obra de Lamartine Babo - que deu o título de 1981 - a fonte de inspiração para apagar de vez o fantasma do rebaixamento no Carnaval passado.



Mas que ninguém duvide da força da Império da Tijuca - que caprichou no tema sobre a Educação e tem um dos melhores sambas da  atual safra da Série A. Logo mais, a Marquês de Sapucaí verá também a Unidos de Padre Miguel, que tem sido a 'pedra no sapato' de quem quer subir de grupo. A escola da Zona Oeste, na realidade, também se preparou muito para apresentar o enredo afro 'Ginga', de Fábio Ricardo e quer, finalmente, chegar à elite. Sossego, Inocentes de Belford Roxo, Unidos de Bangu e Santa Cruz, que tem tido menos  brilho no Carnaval e colocações apenas intermediárias no Grupo de Acesso, lutam para dias de glória, e querem provar que a geografia do samba pode mudar. 



SAIBA COMO FOI A PARTICIPAÇÃO DE CADA ESCOLA NA PRIMEIRA NOITE DE DESFILES  



VIGÁRIO GERAL - Na reestreia na Marquês de Sapucaí, após o título na Série B no ano passado, a Acadêmicos de Vigário Geral abriu a noite recheada de críticas ao presidente Jair Bolsonaro. No fim do desfile, um tripé trazia um palhaço com uma faixa presidencial. A escola abriu a noite cerca de 15 minutos depois do horário previsto por causa da chuva,  que parou antes do começo do desfile. Com o enredo "O conto do vigário", falou sobre as farsas e o folclórico "jeitinho" brasileiro que ajudaram a construir a história do país  desde seu descobrimento.Com 24 alas, três alegorias e 1.700 componentes, marcou seu retorno à Sapucaí, onde não disputava desde 1996, quando participou do antigo Grupo B. Uma apresentação politicamente correta que credencia a posições intermediárias e a possibilidade de permanência na Série A em 2021.



ACADÊMICOS DA ROCINHA - A escola de São Conrado, que já fez parte da 'elite' do carnaval carioca, ainda precisa encontrar o caminho certo para voltar a brilhar no Grupo Especial. Com o enredo "A guerreira negra que dominou dois mundos", contou a história de Maria da Conceição, uma escrava do Congo trazida para o Brasil e que aqui se tornou 'guerreira'. Ela foi considerada uma heroína em Magé, cidade que tem o único quilombo reconhecido na Baixada Fluminense, o Quilombo Maria Conga. Um desfile de pontos  positivos, como a ala com deficientes visuais acompanhados de seus guias representando a luta por direitos após a alforria de Maria, e negativos, como o problema com a terceira alegoria, que teve dificuldade para passar no meio da Sapucaí e deixou um grande buraco por alguns minutos. levou menos componentes do que os 1,5 mil anunciados. Briga por  posições intermediárias.



UNIDOS DA PONTE - Através do enredo "Elos da eternidade", a Unidos da Ponte, de São joão de Meriti, fez uma conexão entre o abstrato e o mundo real para falar dos problemas que o carnaval vem passando. E parece te encontrado o caminho por dias melhores na Marquês de Sapucaí. A agremiação exibiu uma comissão de frente impactante, que arrancou aplausos do público e jurados, o samba enredo, de fácil assimilação, foi cantando a plenos pulmões pela escola. Mas como tudo que é bom dura pouco, os erros nas estruturas dos carros comprometeram o belo desfile. No abre-alas, por exemplo, a grande estátua de Zeus teve problemas e quase perdeu totalmente a cabeça. Certamente perderá pontos precioso na luta para voltar à chamada elite, de onde saiu em 1996. 



PORTO DA PEDRA - O 'Tigre' de São Gonçalo honrou suas tradições, mais uma vez, cantando forte na apresentação do enredo "O que é que a baiana tem? Do Bonfim à Sapucaí", da carnavalesca Annik Salmon, que estreou sozinha na função. Na merecida homenagem às tradicionais figuras do Carnaval, a escola foi a primeira a levantar público e nem a chuva que caiu em alguns momentos do desfile tirou o entusiasmo. Com 20 alas, quatro alegorias e 1.500 desfilantes, a agremiação cumpriu o desfile em 53 minutos, e sem atraso. E mostrou a força dos bons tempos na chamada 'elite', com fantasias de bom gosto, alegorias imponentes, canto forte e interatividade com o público. A junção de duas composições concorrentes para o hino oficial, mostrou ser uma decisão acertada. De fácil assimilação, mas sem perder a riqueza harmônica e melódica, a música foi o combustível que o 'Tigre' precisava para tentar voltar à elite, de onde está ausente desde 2013. Mestre Pablo brilhou na condução da bateria, assim como o intérprete Pitty Menezes, que parecia um veterano, apesar da estréia no microfone principal da escola na Série A.      



CUBANGO - Há coisas que só acontecem com a Cubango na Sapucaí. Há alguns anos na Série A, a escola sempre tem feito apresentações memoráveis nos desfiles, mas os velhos problemas da pista sempre acontecem e tiram décimos preciosos para o título. Esse ano não foi diferente, A agremiação contou a história do patrono da abolição, Luiz Gama, no enredo "A voz da liberdade". Para os niteroienses, ele foi um dos personagens mais importantes da história do Brasil, mas pouco conhecido. Apesar de um desfile colorido, luxuoso e arrebatador no início, sofreu com problemas no segundo e terceiro carros. O segundo perdeu a direção e a conexão entre suas duas partes, o que pode custar um décimo de punição. Já a pata direita da grande escultura de um cavalo branco, da terceira, rachou, e os sambistas tiveram que apoiá-la para que não se quebrasse e soltasse da estrutura. Foi uma das mais grandiosas da Sapucaí, levando 2,3 mil componentes para a apresentação.



RENASCER DE JACAREPAGUÁ - A escola celebrou a importância e o trabalho das benzadeiras em seu enredo "Eu que te benzo, Deus que te cura", do carnavalesco Ney Júnior. Apesar do samba bem cantado pelos componentes, não teve interatividade com o público e também abriu alguns buracos ao longo do desfile. A exemplo do que aconteceu no ano passado, deve brigar por posições intermediárias. 



IMPÉRIO SERRANO  - Sem dúvida a pior apresentação na Sapucaí mancha a gloriosa história da verde e branca do Morro da Serrinha. Com fantasias incompletas, como na ala das baianas, problemas em carros alegóricos e harmonia e evolução confusos, foi, de longe, a pior da noite na apresentação do enredo ""Lugar de mulher é onde ela quiser", que exaltou a força feminina na sociedade. Rebaixada em 2019, com apresentação semelhante, com falhas em todos os quesitos, em 2019, um ano após ter ficado na 'elite' em 2018,  graças a uma 'virada de mesa' na Liesa, só mesmo um milagre tira a escola da Estrada Intendente Magalhães, em Campinho, no Grupo B, em 2019. 


* Equipe especial para a cobertura do Carnaval 2020 na Marquês de Sapucaí. 

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