Um time de ‘fiéis’ da bola
Grupo dos Trinta Amigos, do Mutuá, transformou antiga igreja evangélica em sede

Como em todos os domingos, por volta de 6h um grupo de cerca de 30 homens começa a chegar ao prédio de uma antiga igreja evangélica, no Mutuá, em São Gonçalo. Mas, ao invés de bíblias, trazem nas mãos sacolas com chuteiras. Eles são os ‘fiéis’ do Grupo dos Trinta Amigos de Infância, que há 15 anos se reúnem para o mesmo ritual: a tradicional pelada de domingo, no Campo da Barreira (Praça de Esportes Aristeu Silveira).
A estrutura da igreja - abandonada após um deslizamento de terra destruir os fundos do templo - virou sede do grupo, e é onde os atletas se concentram antes das ‘peladas’ para tomar o café da manhã e local das famosas ‘resenhas’ pós jogos.
Fundado no dia 30 de maio de 2000, o Grupo dos Trinta surgiu com a reunião de 30 amigos que se juntaram para disputar a primeira ‘pelada’ num terreno baldio e cheio de buracos. “A gente jogava num espaço de terra batida, com barro escuro. Quando chovia, não tinha jogo. Era um lamaçal só”, relembra o presidente e zagueiro, Gilson, 65, .
Ainda antes das 7h, enquanto os jogadores vão chegando, a ‘comissão técnica’ vai dividindo as escalações de quatro times com oito jogadores. Os critérios, geralmente, são a ordem de chegada, estar em dia com a mensalidade de R$30, e por último a idade dos atletas, para manter o equilíbrio entre as equipes.
“A gente bota um veterano, pelo menos, em cada time para ficar equilibrado. Não dá para botar os velhos todos juntos ‘né’. Aí é covardia”, brinca o diretor social do grupo, Gica, que ‘pendurou as chuteiras’ por conta de um problema no joelho.
Apesar dos cabelos brancos da maior parte dos atletas (a média de idade é acima dos 40 anos) contrastar com a disposição física dos mais jovens (o mais novo tem 17 anos), a pelada costuma ser disputada.
“Vou para lá e para cá. Quando a bola vem para mim, eu penso rápido na jogada e faço o que muito garoto não faz. Não fico esperando igual essa molecada não”, garante o meia Jorginho Vovô, de 67 anos, o mais veterano do grupo.
Social - A forte identificação com causas sociais levou a atuação do Grupo dos Trinta para além das quatro linhas.
Conscientes de que poderiam oferecer uma ajuda ainda maior para a comunidade, além da união através do esporte, os fundadores tiveram a ideia de realizar ações sociais. Com o lema de “Grupo Forte”, os peladeiros passaram a arrecadar alimentos e distribuir, todos os meses, para creches, asilos e pessoas carentes do bairro.
Esta parte filantrópica exercida pelos peladeiros, de acordo com o presidente Gilson, é um dos fatores que ajuda a manter a união do grupo. “A gente fica muito feliz em ajudar as pessoas. É muito gratificante”, afirma.
Outro ponto comum entre os jogadores, além da solidariedade, é a fé. Antes de iniciar a ‘pelada’, todos se reúnem para uma grande corrente de oração, independente da orientação religiosa de cada um.
No início, ‘peladas’disputadas em campo de barro
Os 15 anos do Grupo dos Trinta Amigos de Infância é marcado por uma série de conquistas. Em 2000, ano de fundação, a equipe jogava num campo de barro escuro e esburacado. Mas, há três anos, os peladeiros deram adeus ao terreno baldio que usavam e ganharam uma praça de esportes, denominada Aristeu Silveira.
Nesta mesma época, um deslizamento de terra atingiu os fundos de uma igreja evangélica, localizada ao lado do antigo campo de areia batida. A destruição de grande parte da estrutura do local impediu que os fiéis continuassem a realizar cultos religiosos ali, e o local virou ponto de venda e consumo de drogas.
A reclamação constante dos moradores quanto à segurança do local, chamou a atenção do grupo de peladeiros, que, com a autorização do pastor da igreja, ocupou o prédio e o transformou em sede social
É onde eles comemoram os aniversários, realizam reuniões e armazenam os mantimentos a serem doados.
'Mão de quiabo’, ‘gafanhoto’, ‘boca deserta’...só tem craque
Apesar de conviverem juntos há 15 anos, muitos dos 52 integrantes do Grupo dos Trinta Amigos de Infância não se conhecem pelo nome verdadeiro, e utilizam o apelido para se comunicarem dentro e fora de campo.
Sorriso; Mão de Quiabo; Pesado; Tanque; Boca Deserta; Gafanhoto; Bicho-Pau; Pé de Cabrito; e Xodó. Essa é a escalação de um dos times que disputou a pelada num domingo de agosto, quando O SÃO GONÇALO acompanhou o desfile de craques no Campo do Barreira.
Em matéria de apelidos, no Grupo dos Trinta só tem craque.



