30 de Julho de 2010
Aos 11 anos, o menino J. conheceu a maconha. No ano passado, aos 15, numa crise de abstinência de cocaína, foi acorrentado dentro de casa, pela mãe desesperada. Na segunda-feira (8), aos 16, ele teve mais um acesso de fúria. Desta vez, entorpecido pelo efeito de ‘zirré’, uma mistura explosiva das duas drogas. Ao contrário das histórias de viciados que inspiraram filmes como ‘O meu nome não é Johnny’ e ‘Bicho de sete cabeças’, a vida de J. não é um longa-metragem. A sua história não é campeã de bilheteria, mas de internações em clínicas psiquiátricas. Vez ou outra, a exemplo de ontem, o seu drama e de sua família é documentado. As fotografias, em seqüência, denunciam a tragédia de uma vida destroçada pelas drogas.
O capítulo de segunda-feira, parecia o remake desse roteiro. “Eu sou bandido e vou dar tiro em quem chegar perto”, gritava J., na sala da pequena casa que divide com a mãe, um irmão de seis anos e o padrasto, no Coelho, em São Gonçalo. Em novembro de 2008, O SÃO GONÇALO mostrou o drama da família. À época, J. havia sido acorrentado na janela de ferro do único quarto da casa. Agressivo e confuso, atordoado pelo ‘zirré’, J., dessa vez, estava sem correntes.
“Ele está piorando e não encontro ajuda para curá-lo”, lamentava a mãe dele, de 36 anos. Há pelo menos dois anos ela busca opções para internar e tratar o filho, mas esbarra na burocracia e não consegue atendimento adequado.
Ao chegar, a equipe de reportagem encontrou o jovem agarrado ao irmão de seis anos. A mãe contava com a ajuda de uma irmã e sua filha para evitar que ele fosse para a rua. “Se ele sair volta pior ainda”, disse. “É polícia? Então pode me prender. Sou bandido e vou dar tiro”, gritava o adolescente, entre frases atrapalhadas de canções que fazem alusão a facções criminosas.
Então, começou o desespero. A mãe pedia para ele soltar o irmão. Cada vez mais nervoso, J. começou a apertar o pescoço do garoto. Preocupadas, as mulheres iniciaram uma luta para desvencilhar um do outro.
Quando conseguiram, trancaram J. com um cadeado pelo lado de fora. Ele, então, respondeu com mais agressividade. Quebrou objetos e o vidro da porta principal. Enquanto uma multidão de curiosos assistia a cena, em frente à residência, J. quebrava tudo. O padrasto do rapaz chegou e o imobilizou. Foi aí que alguns conhecidos de J. entraram e começaram a conversar com ele, segurando seus braços. Até um pastor evangélico levou orientação para o adolescente. O alívio só veio com a chegada da Samu, às 18h. Levado à força pelos médicos até a ambulância, J. teve os pés amarrados na maca e recebeu os primeiros socorros. Ele foi internado no Pronto Socorro de Alcântara (PSA).
Internações - No ano passado, J. foi internado três vezes. Em janeiro, na clínica Leão de Judá, em Casimiro de Abreu. Sete meses depois, chegou a uma unidade de Itaboraí. Nestas, ficou cerca de dois anos e meio. No segundo semestre, ficou cerca de três meses no PSA.
Perseverança - Sem conseguir controlar o filho, a mãe não quer perder a luta contra as drogas. Ela diz isso porque o menino perdeu completamente a noção do que é certo e errado. Anda nu pelas ruas, invade casas, rouba comércios e já chegou a render um homem, fingindo estar armado. Concentrada no sofrimento do filho, ela tem medo que ele seja morto.
“Ele não respeita mais ninguém e tenho medo que seja morto. Não sei mais o que fazer”, prevê a mãe, que luta pela internação. Se pudesse reescrever o roteiro da vida de seu filho, certamente ele teria um final feliz. O nome dele não é Johnny.
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