"As ameaças se concretizaram", desabafa mulher com medo de ser morta pelo ex-marido

Mulher teve a casa incendiada e sofre constantes ameaças

Enviado Direto da Redação
>>> 'X' teve a casa incendiada pelo ex-marido, que faz constantes ameaças contra a sua vida. Ela pede que as autoridades não esperem acontecer uma tragédia para só então tomarem previdências

>>> 'X' teve a casa incendiada pelo ex-marido, que faz constantes ameaças contra a sua vida. Ela pede que as autoridades não esperem acontecer uma tragédia para só então tomarem previdências

Foto: Filipe Aguiar


O relato é de X., 37 anos, que viveu durante anos sob o terror da violência doméstica do marido, enquanto cuidava da casa, dos filhos e ainda ajudava no sustento da família trabalhando num restaurante, em São Gonçalo. O último ato dele, um pintor de paredes, de 42 anos, foi incendiar a casa onde o casal viveu durante mais de 20 anos, na noite de Natal.


Basta - Em junho de 2017, eu decidi dar um basta naquela situação de medo. Quando disse que queria o divórcio, ele não aceitou. Me deu um soco que me deixou com um olho roxo por dias. Não fui trabalhar por uma semana. A agressão nunca é apenas física, ela é psicológica também, e é o que às vezes dói mais. Ele me privou de ver minha própria mãe. Confesso que, no meu íntimo, realmente não queria que ela me visse naquele estado. Minha mãe e minha irmã sempre me alertaram quanto ao comportamento dele, mas eu tive dificuldade de enxergar. Não era normal que ele tivesse uma má relação com todos os meus familiares. Não sei se tive pena, medo. Havia uma mistura de sentimentos que me fazia permanecer. Ele passou a me perseguir e a desconfiar de tudo. Certa vez, em outubro, me abordou em frente ao meu trabalho, querendo pegar meu celular. Eu expliquei que não queria conversa. Estava a caminho da academia e ele me xingou de todos os nomes impróprios que existem. Disse que eu estava querendo ficar bonita para alguém e ameaçou me bater no meio da rua caso eu fosse malhar. Eu fiquei apavorada em passar por isso próximo de um local onde todos me conheciam. Chegando em casa, ele conseguiu furtar meu celular, levou o aparelho a uma assistência técnica para desbloquear a tela e leu as mensagens. Foi quando decidi sair de casa, em busca de um pouco de paz.


Perseguição - Mesmo morando em outro lugar, ele continuava a me procurar. Me perseguia até o trabalho. Ameaçou um funcionário de morte, alegando que tínhamos um caso. Por conta disso, a empresa me afastou do emprego. Desde então, eu não consigo trabalhar. Minha vida acabou. Foi preciso que ele fizesse coisa pior para que eu acordasse. Em novembro, ele apareceu na casa onde moramos, onde estavam nossos filhos de 17 e 19 anos, minha nora e meu neto de 11 meses. Os vizinhos contaram que ele estava, aparentemente, alcoolizado e drogado, dizendo que tinha voltado para ficar, porque a casa seria dele também. Na verdade, o terreno era dos meus pais, e a casa está no meu nome. Questionado pelo filho mais novo, ele quebrou um copo de vidro e cortou o rosto do garoto. Naquele dia eu tomei coragem de procurar a Deam. Se ele tinha coragem de fazer aquilo com o próprio filho, poderia fazer coisa pior comigo e com o restante da família.


Incêndio - Consegui a medida protetiva para mim e para a minha família no Juizado da Violência Doméstica e Familiar. Ele tinha que manter pelo menos 500 metros de distância da gente e foi proibido de estabelecer contato. Apesar disso, continuou na casa com meus filhos. Na noite de Natal, todos foram celebrar comigo onde moro escondida dele. Ao perceber que não havia ninguém em casa, ele colocou fogo na casa, queimando o colchão do nossa antiga cama. Os vizinhos me mandaram fotos e chamaram os bombeiros. Na manhã seguinte, ele repetiu tudo e colocou fogo na casa da minha mãe, que fica ao lado. Pouca coisa restou. Segundo os bombeiros, ele teria cortado a mangueira do botijão de gás. As chamas se alastraram pela cozinha, destruindo fogão, geladeira, pia. O fogo ‘lambeu’ tudo, as fraldas, os brinquedos, as roupas do meu neto.


Medo - As ameaças de que acabaria com a minha vida, de fato, se concretizaram. O que ele fez afetou não somente a mim, mas a toda a minha família. Não consigo trabalhar, nem dormir, pensando em qual será a próxima maldade dele. Meus filhos estão revoltados, precisam de tratamento. Minha irmã se mudou para ficar distante dele, minha mãe perdeu tudo o que tinha e se abrigou na casa de um familiarj. Eu estou morando de favor. A sensação é de que vivi mais de 20 anos com alguém que não conhecia. E temo pela vida de todos nós. Ele é capaz de tudo!


Apelo - Peço que as autoridades me ajudem. Ele tem que ser contido. Não quero ser mais uma mulher nas estatísticas. Só teremos paz quando ele estiver atrás das grades. Chegamos a conseguir na Defensoria Pública o pedido de prisão preventiva dele, mas um juiz plantão durante as festas de fim de ano indeferiu. Espero que não esperem que eu seja morta para tomarem uma atitude. Tenho medo por mim e por tantas outras que podem estar enfrentando o mesmo problema. O meu recado para elas é de quem te agride não vai mudar de repente. Eu cansei de ouvir as mesmas promessas. ‘Me dê uma nova chance!’, ‘Vamos esquecer tudo e começar do zero’. Eu perdoei a primeira, a segunda, a terceira vez... Ele pode até mudar de atitude no princípio, mas depois faz coisas piores. Levei 20 anos acreditando e olha onde parei. Tenho medo de não ser capaz de viver mais um dia...



Dados do Dossiê da Mulher 2017, que tomam como base o ano anterior, revelam que o Estado registrou 58 casos de feminicídio e tentativa de feminicídio em 2016. Este conceito engloba o crime de homicídio doloso - aquele em que há intenção de matar - praticado somente pelo fato da vítima ser mulher. De acordo com a delegada titular da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam) de São Gonçalo, Débora Rodrigues, este tipo de crime é praticado geralmente por ex-parceiros que não aceitam o término da relação ou por nutrirem um sentimento de propriedade sobre a mulher, por exemplo.


Somente em 2017, a Deam-SG registrou cerca de 3,5 mil ocorrências, a maioria delas referentes à violência no ambiente familiar, o que permite a aplicação da Lei Maria da Penha.


“A maior parte das ocorrências remete ao crime de lesão corporal, seguido por ameaça e injúria. Infelizmente, a mulher só procura a delegacia, quando essa violência deixa marcas no corpo. Praticamente 10% dos casos são brigas que não envolvem a família, como briga de vizinho, de escola ou semelhantes, de menor potencial ofensivo”, explica a delegada.


(Elena Wesley)




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