Educando pelo olhar

Enviado Direto da Redação

Volta e meia eu me vejo aqui contando alguma história ou fazendo referência a algum texto que me tenha chamado à atenção pelo que ele simboliza no sentido de aprender emocionalmente condutas que nos fazem mais humanos e que nos direcionam para convivências mais sadias. É certo que estamos vivendo num mundo bastante conturbado. Muitos conceitos de vida misturados e mal interpretados, muita violência, muita falta de paciência, muita incompreensão pelas atitudes do outro. É preciso se ter muita sabedoria e firmeza para que se possa oferecer, às crianças, um rumo que se norteie pelo cumprimento de certas regras que se impõem para se viver em espaços comuns, pelo respeito a si mesma, pelo respeito ao outro e pelo respeito às diferenças.


Há textos que, com a sua simplicidade, nos ensinam como certas atitudes são essenciais para se viver a complexidade da vida e, um deles, é a história do lápis. Conta-se que certa vez uma avó estava escrevendo algo numa folha de papel, quando o seu neto lhe pergunta se é sobre ele que ela está falando ali. A avó, sábia, não sei se pela idade ou se pela sua própria natureza, parou de escrever e disse para o neto que era sobre ele, sim, mas o que era mais importante do que as palavras, era o lápis que ela estava usando. E disse ao neto que gostaria que ele, quando crescesse, fosse igual ao lápis. Mas o menino, ao olhar para o lápis, não vê nada de especial, já que ele era igual a todos os que ele conhecia.


Aqui, surge na minha memória, as palavras do psicanalista e educador, Rubem Alves quando disse que “As palavras só têm sentido se nos ajudam a ver o mundo melhor. Aprendemos palavras para melhorar os olhos, e,Educar é mostrar a vida a quem ainda não a viu”. Pois não é que, na história, a avó do menino vai exatamente educá-lo pelo olhar! Ao ver que o menino via no lápis apenas um instrumento banal que servia para escrever, buscou um outro olhar para o objeto e diz ao neto que tudo dependia do modo como a gente olha para cada coisa. E continuou lhe falando que ela via, naquela simples peça, cinco grandes qualidades que, se o menino conseguisse manter dentro dele, seria sempre uma pessoa muito especial, além de exercitar a compreensão e promover a paz entre as pessoas. A primeira qualidade é não esquecer que sempre existirá uma mão que vai guiá-lo pela vida: a mão e Deus. A segunda é que a ponta do lápis vai diminuindo e é preciso usar o apontador para que ele continue produzindo escrita. Isto faz com que ele sofra, mas ao mesmo tempo fica mais afiado. Afinal, algumas dores fazem de nós pessoas melhores.


A terceira é a possibilidade que ele nos dá de usar uma borracha para apagar possíveis erros que podem nos tirar do caminho da justiça. A quarta grande qualidade do lápis não é a sua forma exterior, mas o que ele tem dentro: o grafite.E disse ao neto que ele deve sempre cuidar do que tem dentro, do seu interior. A quinta e última qualidade que ela via no lápis é que ele sempre deixa uma marca. Isto quer dizer que tudo que fazemos na vida deixa uma marca. Logo, é preciso tomar cuidado sobre que tipo de marca a pessoa deseja deixar em si e no outro.

Para que o resultado de uma educação seja promissor em conhecimentos vários, em equilíbrio emocional, em apoio à sensibilidade e na sustentação da nossa própria humanidade, vendo, no outro, uma extensão de nós mesmos e, procurando não fazer com ele aquilo que não gostaríamos que fizesse conosco,é preciso que sejamos modelo daquilo que desejamos para geração que aí está. Para ser livre é necessário respeitar a liberdade do outro. Vivemos em teia, em relações que, estreitas ou não, devem manter a civilidade. Cada um de nós pode ser dono de seu próprio pensamento e de suas próprias atitudes, desde que eles não agridam o outro. Bom seria que muitas avós assim e muitos lápis se espalhassem pelo mundo!

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