Festa junina: uma história de fé

Enviado Direto da Redação

Estamos num mês bem alegre no qual se realizam as animadas festas juninas. São bandeirinhas coloridas enfeitando escolas, vilas, ruas, bares, praças públicas. São barraquinhas montadas nas imediações das igrejas, vendendo mimos dos santos e comidas típicas ao som de músicas específicas, feitas especialmente para as festas. Mas quando e onde estas festividades tiveram sua origem? Pelo que se conta, as comemorações juninas tiveram início no começo da era cristã, numa Europa em sua maioria pagã.


Os povos que habitavam as regiões campestres, na antiguidade ocidental, prestavam homenagens a diversos deuses aos quais se atribuíam as funções de garantir boas plantações, boas colheitas e fertilidade. Eram festejos consagrados ao solstício de verão que, naquele continente, acontecia em junho. Na transição da Idade Antiga para a Idade Média, com a cristianização dos romanos e dos povos bárbaros, essas festividades foram assimiladas pela Igreja Católica, que soube, e muito bem, substituir o culto aos deuses pagãos do período junino pelos santos Antônio, João e Pedro.


O elemento principal das festas pagãs, além das danças e cânticos que se faziam em homenagem aos deuses, era a grande fogueira que se acendia para celebrar a fartura, a chegada da nova estação e saudar o deus Sol. A homenagem da fogueira pagã ao deus Sol, por sua vez, foi substituída pela celebração bíblica em que Isabel usa uma fogueira para avisar a Maria, sua prima, do nascimento de seu filho João. Surgiam, assim, as festas juninas comemoradas em diversos países europeus como Dinamarca, Estônia, Finlândia, Letônia, Lituânia, Noruega, Suécia, Irlanda, França, Itália, Malta, Portugal, Espanha, Ucrânia.


A mescla que se fez dos festejos pagãos com os preceitos cristãos foi muito bem aceita pela religiosidade popular que a assimilou de forma profunda. Na Península Ibérica, onde o catolicismo se desenvolveu com muita força no fim da Idade Média, as tradições juninas tornaram-se plenamente enraizadas. Com a colonização do Brasil pelos portugueses, a partir do século XVI, as festividades ganharam força, principalmente na zona rural, pois já trazia, no seu cerne, uma íntima ligação com o ciclo das colheitas agrícolas e com o calendário religioso, sendo marcadas pelos costumes tradicionais da cultura regional. Assim, além de manterem as características herdadas da Europa, como a celebração dos dias dos santos, também misturaram elementos típicos do interior do país e de tradições sertanejas, tecidas pela multiplicidade das culturas africana, indígena e europeia.


A vinda quase maciça dos nordestinos das zonas rurais para as cidades e a expansão da indústria transformaram as festas em verdadeiros eventos turísticos. Mesmo assim, elas não perderam a sua raiz, pois ainda mantêm muitos componentes tradicionais, como casamento da roça, quadrilhas, fogueiras, músicas com ritmos e letras que louvam a festa e os santos, comidas e bebidas típicas, dentre tantos outros elementos que se ligam ao imaginário social pertencente à nossa cultura. Durante o Império, era a quadrilha que abria os bailes da Corte. Com o tempo, a dança abriu as portas dos salões do palácio e saltou da Corte para as ruas. Assimilada a sua coreografia aristocrática, o povo, com criatividade e humor, a adornou com novos passos, novos nomes e novos figurantes. Hoje, alegre e contagiante, a quadrilha é a paixão da festa junina. E é assim que se faz a história: repetindo, criando e recriando fé.

Veja também