À mão de ontem, de hoje, de sempre

Enviado Direto da Redação

Hoje é o dia em que se comemora a figura mais festejada de todos os tempos: a mãe. Se olharmos para o nosso passado, vamos saber que o primeiro elemento cultuado pelo ser humano foi a Terra. Como o homem sempre tentou entender quem era, de onde teria vindo, onde estava e para onde iria, a primeira resposta que buscou para si foi sobre o nascimento do lugar que sustentava seu corpo e sua alma: a Terra. Por isso, o culto do divino feminino é um dos mais antigos de que se tem notícia. E a Terra, dizem os mitos, foi gerada por ela mesma. A vida nascia de sua carne rasgada e brotava das suas profundezas. Assim, ela mesma produzia os frutos, os animais, o próprio homem. Mãe de todas as coisas vivas, também era responsabilizada pela morte. Isto tinha sentido: se a vida nascia do ventre da Terra, a morte seria um regresso a ele a fim de que um novo nascimento pudesse acontecer. Surge, daí, o culto religioso à Grande Mãe Universal.

Diante disto, o que percebemos é que as culturas da Deusa Mãe concebiam os dois mundos - natural e humano - como interligados na grande teia da vida: seu próprio corpo. Essa Deusa, também conhecida como Senhora dos dez mil nomes, foi idolatrada por vários povos antigos como Deméter, Cibele, Nut, Nana Buluka, Ishtar entre tantos outros. Os diferentes nomes, no entanto, não tiravam dela o significado do princípio criador. Simbolizava, sim, a unidade essencial de toda a vida na Terra. O sagrado da maternidade, então, já se fazia presente quando se reafirmou com a descoberta da agricultura: a fertilidade da terra ligou-se simbolicamente à fecundidade feminina. Na percepção de nossos ancestrais, as mulheres tornaram-se responsáveis pela abundância das colheitas, uma vez que conheciam e compartilhavam do mistério da criação. O tempo foi passando, as mentalidades mudando até que seu culto foi substituído pelos deuses guerreiros e depois por um só Deus. E a Grande-Mãe foi associada ao Deus, como filha. 

Nada, no entanto, tira da mulher o sagrado da maternidade e do sentimento que ela propicia. Estou falando da forma como as atitudes humanas vão se transformando com o tempo, seja nas religiões, na política ou em qualquer outra esfera. Hoje é Dia das Mães e ontem, 13 de maio, foi dia de uma das mães, humana como tantas outras na história, que sofreu a dor da perda do filho de forma brutal: Maria. Humana, mas divina pela escolha de Deus: fazê-la Mãe de seu Filho. Também Senhora de mil nomes, os fiéis continuam a mostrar intensa adoração à Mãe de Deus em oração e devoção. Deste modo, a origem e perpetuação da reverência às mães, embora por caminhos diferentes,chegam a um mesmo ponto, seja na crença dos antepassados ou na de hoje: ao agradecimento àquela que nos deu a vida, ao agradecimento a Deus por tê-la feito com mais de oito braços, doze ou mais olhos e um sentido especial que adivinha perigos e sofrimentos pelos quais o filho pode estar passando. Gosto dos poetas porque eles sabem pegar nossos sentimentos com as mãos e transformar, em palavras, aquilo que dizemos, quando emocionados: “não tenho palavras”. Eles têm. Por isso vou pedir emprestado o poema “Para sempre”, de Carlos Drummond de Andrade, e transcrevê-lo aqui, neste dia em que queremos dizer às nossas mães, presentes ou não, o que está em nossos corações. 

Eis o poema: Por que Deus permite que as mães vão-se embora? /Mãe não tem limite. / é tempo sem hora, / luz que não apaga / quando sopra o vento / e a chuva desaba / veludo escondido na pele enrugada. / água pura, ar puro. / puro pensamento. / Morrer acontece / com o que é breve e passa / sem deixar vestígio. / Mãe, na sua graça, / é eternidade. Por que Deus se lembra - mistério profundo - de tirá-la um dia? / Fosse eu Rei do Mundo, baixava uma lei: / Mãe não morre nunca, / mãe ficará para sempre / junto de seu filho / e ele velho embora, / será pequenino / feito um grão de milho

Veja também