25% dos bairros de São Gonçalo tem ruas interditadas por barricadas

Cerca de 400 mil moradores são 'reféns do tráfico'

Enviado Direto da Redação

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Pelo menos 25% dos bairros gonçalenses possuem ruas interditadas por decisão do tráfico. Dos 93 que integram o município, 23 foram mencionados pelos cidadãos que participam do canal de comunicação “Tem Barricada aí?”, lançado pelo O SÃO GONÇALO nesta segunda. Pelo número do whatsapp 21-97220-6423, a população pode informar locais onde o traficantes prejudicam ou impedem a circulação de veículos, na tentativa de dificultar as operações policiais.


Em dois dias de atividade, o “Tem Barricada Aí?” recebeu mais de 30 denúncias. Ontem, os bairros mais comentados foram Vista Alegre e Santa Luzia, com seis e cinco relatos, respectivamente. No líder do ranking de barricadas, os obstáculos atrapalham estudantes e afetam a entrega de encomendas nas residências.


Citada na segunda-feira pelos moradores, a Rua Joaquim Nabuco é uma das principais do cenário de disputa de território que se formou na região há pelo menos dois meses. Ali, os bandidos teriam formado uma espécie de condomínio do tráfico, conforme os relatos. As ruas Itapetininga, Zeferino Costa, Zilda Savares e Itaporé também apresentam interdições.


Os moradores de Santa Luzia estão surpresos com as mudanças recentes no bairro. “Tem muitas residências, sempre conhecido como um local pacato. Até poucas décadas atrás, ainda era uma área rural. Hoje estamos reféns de uma violência que chegou de repente. É triste pagarmos os impostos em dia, mas estarmos impedidos de andar livremente. Mesmo depois das últimas operações, as barricadas voltaram”, lamenta um dos leitores.


Além das ruas citadas no primeiro balanço, como a Afrânio Peixoto e a Emilio Castelar, também há barricadas na Euclides Ninho na esquina com a Expedicionário Iraci Luchina, Eliza Lima, Cardeal Lucio e Visconde de Mauá. Moradores estimam que pelo menos 28 ruas da região tenham algum tipo de objeto na pista. Próximo ao ferro-velho, traficantes com rádios transmissores e armas de grosso calibre ‘tomam conta’ da área.


Um morador de Guaxindiba conta história semelhante. “Me mudei da Trindade faz quatro anos. Até o ano passado, onde eu moro era um trecho muito tranquilo. Hoje, da rua 1 até a 13 há barricadas, com exceção da 3 e da 7”, afirma. Na Rua Alcindo Guanabara, o fluxo ficou interrompido após o despejo de dois caminhões de terra. A Rua Resende Costa também está interditada, assim como diversas transversais à Laudelino Freire.


Idosos correm risco de perder atendimento médico


No Campo Novo, em Maria Paula, a população teme que as ações do tráfico resultem na falta de acesso a tratamentos de saúde. Uma equipe médica que oferece assistência domiciliar gratuita foi alvejada ao tentar retirar caçambas de lixo que impediam o tráfego na Rua A, próximo à comunidade Risca Faca.


Os disparos atingiram o carro da enfermeira, e o médico responsável pela equipe informou aos moradores que pode suspender o serviço. Um relato acrescentou que os criminosos promovem festas todas as quintas, a céu aberto, com bebidas oriundas de cargas roubadas. Uma lata de cerveja é vendida a apenas R$1.


No Jardim Catarina também há dificuldades semelhantes. As barricadas na Rua Américo Miranda (antiga Rua 9) impossibilitam a entrada de ambulâncias. No local, há pacientes que realizam hemodiálise.


Cerca de 400 mil moradores viram 'reféns em territórios do tráfico'


Se somarmos a população dos 23 bairros mencionados por moradores no “Tem Barricada aí?”, cerca de 397 mil habitantes têm sido prejudicados pelas interdições nas ruas gonçalenses, o que equivale a 38% da população total de mais de um milhão de pessoas.


Para não utilizar as calçadas, motoristas que frequentavam a Rua Paulo Damásio, uma das principais do Mutuapira, fazem trajeto mais extenso. Segundo relatos, a boca de fumo da via fica na esquina com a Rua Santa Maria, um ponto mais alto na região. Também existem obstáculos na Rua Viana Castelo.


Todas as transversais à Avenida Trindade, a mais importante do Luiz Caçador, têm barricadas, desde o viaduto até a divisa com Trindade, bem como na área próxima à Rua Padre Belchior, no conjunto habitacional. No bairro vizinho, as Ruas Barra Mansa, Itajuba, Maria Amelia, Nigéria e Itumbiara. Na Cabo Frio e na Rezende, os obstáculos foram recolocados após ação policial para retirada, há aproximadamente quatro meses. De acordo com os moradores, o clima ficou mais tenso após os acontecimentos no Complexo do Salgueiro


. Há duas semanas, os traficantes obstruíram a Rua Ramalho Monteiro. Blocos de concreto e pedaços de ferro interditam a Rua Ricardo Marques Filho. A Travessa Leonídia, na Parada 40, a Rua Leandro de Carvalho, no Porto do Rosa, e a Rua André Dasiex, no Laranjal, também apresentam objetos que complicam o dia a dia de quem frequenta a região.


Há quase um ano, o direito de ir e vir têm ficado na teoria para os moradores da Rua Aldrovando Pena, no Raul Veiga. O panorama está crítico ainda em Bom Retiro, nas ruas Souza Costa e José Gabriel de Souza.


No Morro do Martins, na Venda da Cruz, sair e voltar para casa virou um desafio para aqueles que precisam transitar nas ruas Pereira Pinto, Euclides Martins e Arthur Tibau.


Em Tribobó, moradores do bairro da Mangueirinha e da Nova Grécia já não sabem o que fazer. O acesso à Igreja Assembleia de Deus está comprometido. Na antiga Estrada da Fazendinha, a população já procurou o Disque-Denúncia e os órgãos de segurança, mas não conseguiram contato.


Na Estrada do Coelho, na Vila Candoza, os serviços de Correio, de limpeza e de transporte estão irregulares por conta das barricadas. Moradores também relatam que há corpos abandonados e com sinais de tortura na via.





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