Primeiro trans masculino é referência na luta LGBT

Niteroiense fez cirurgia na década de 80

Enviado Direto da Redação
Trans masculino que inspirou personagem de novela luta contra câncer de pulmão e pretende escrever novo livro

Trans masculino que inspirou personagem de novela luta contra câncer de pulmão e pretende escrever novo livro

Foto: JD



Os socos nos seios e as inúmeras tentativas de omiti-los nas roupas marcaram algumas das cenas da jovem Ivana em "A Força do Querer". Nascida em um corpo feminino, mas identificando-se como um homem, a personagem da telenovela exibida na Rede Globo superou diversos obstáculos até conseguir assumir sua identidade e alcançar satisfação entre corpo e mente. Retratada na ficção, a luta de Ivan representa a de outros milhares de brasileiros, cujos direitos civis são negados diariamente. O escritor e psicólogo João Walter Nery, é um deles. Inspiração para a autora Glória Perez, o morador de Niterói concilia o desafio de ser um trans masculino e a luta contra o câncer de pulmão que descobriu há um mês.


Considerado a primeira pessoa a fazer uma cirurgia de redesignação sexual (adequar os genitais ao gênero com o qual a pessoa se identifica), ainda na década de 1980, João é referência na luta LGBT. Há pelo menos seis anos, emenda viagens por todo o país em prol da conscientização popular e do fortalecimento dos que enfrentam desafios semelhantes para serem reconhecidos como pessoas. A militância, no entanto, sofreu uma leve pausa em outubro, quando João deu uma pausa na agenda para tratar um câncer no pulmão. Embora descoberto tardiamente por conta de erros médicos, o diagnóstico parece favorável.


 "Por ser fumante desde a adolescência, faço tomografias periodicamente. Em 2016, encontramos um nódulo pequeno. Seis meses depois, fui repetir o exame para comparar, mas a empresa mudou de dono e perdeu o histórico de vários pacientes. Neste ano, repeti o procedimento e já havia linfonodos no nódulo. Em julho, quis verificar se havia crescido. A médica avaliou e pediu apenas uma broncoscopia. O profissional que recebeu o encaminhamento foi direto ao dizer que eu tinha câncer e estava com linfonodos próximos à traqueia", lembra.


Com o baque, o escritor passou mal por três vezes no escritório, a cada detalhe dado pelo profissional. Agora, recuperado, enumera os pontos positivos do quadro. "Eu estava estressado com a rotina desgastante de viagens. Mal via minha própria esposa. Agora, posso passar tempo com ela, receber amigos que não via há anos. Meu tipo de câncer é muito receptivo ao tratamento. Vou começar a segunda semana de quimioterapia, a princípio serão quatro no total. São três dias seguidos de sessão. Muita falta de ar e dificuldade de falar, mas sempre peço para que utilizem apenas o braço esquerdo. O direito eu preciso para conversar com os meninos nas redes sociais", avalia.


 Os "meninos" a quem João se refere são os milhares de jovens, sobretudo aqueles que desejam se assumir como trans masculinos, que buscam aconselhamento nas plataformas virtuais. Nery administra perfis e grupos nos quais indica especialistas capacitados para atender pessoas trans, entre advogados, cirurgiões, endocrinologistas, psicólogos, psiquiatras e ginecologistas.

 

É preciso muita coragem para ser LGBT no Brasil

 

A revista especializada The Lancet estima que 0,4% a 1,3% das pessoas com mais de 15 anos no mundo não se identifica com seu sexo biológico. Com base nesses números, as entidades LGBT brasileiras calculam aproximadamente 752 mil transexuais no país. Apesar do número expressivo, apenas 11 municípios oferecem ambulatórios à população trans, nenhum deles na Região Norte. O cenário é ainda mais grave quanto às unidades públicas disponíveis para realização da cirurgia de redesignação, permitida por lei em 1997 e oferecida pelo SUS somente em 2008. Atualmente, o serviço funciona em cinco cidades:  Goiânia, Recife, Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo, sendo que nestas duas últimas o atendimento está irregular. 


Burocracia e preconceito também afastam a população transexual dos serviços públicos de saúde. João cita, entre muitos aspectos, o impedimento de trans masculinos receberem atendimento ginecológico.


"O sistema não permite que pessoas com nome social masculino sejam cadastradas. O constrangimento de ter aparência masculina também intensifica o preconceito. Mas as necessidades existem. Homens trans têm sangramentos, miomas, podem ficar grávidos. Para o SUS, é como se fôssemos invisíveis", lamenta.


Segundo João, a negligência da assistência médica começa cedo, já que os endocrinologistas se negam a fornecer hormônios.


 "Todos os se automedicam, o que é muito perigoso. Os médicos raramente acreditam que o homem trans se enxerga de fato dessa forma. Geralmente tratam o paciente como uma mulher lésbica que deseja receber testosterona para se 'masculinizar'. Daí, apela-se para a falsificação de receitas, importação de hormônios do Paraguai ainda a procura de academias de ginástica que atuam no mercado clandestino deste ramo", revela.

 

Repercussão da novela facilitou compreensão do tema


 A obra "Viagem solitária, memórias de um transexual trinta anos depois", publicada por João W. Nery em 2011 aparece em "A Força do Querer" em dois episódios: a vez em que o psicólogo presenteia Ivan e aquele no qual Ivana sugere a leitura ao pai. Mais que uma recomendação, a influência de Nery na trama remete à década de 1980, quando Glória Perez teve o primeiro contato com a história do primeiro trans homem do Brasil por meio do livro "Erro de Pessoa - Joana ou João", publicado em 1984. Nele, o psicólogo aborda as dificuldades de compreender e revelar a transexualidade em pleno Regime Militar.


 "Naquela época, emitir um documentos como RG e CPF com outro nome e gênero era configurado como crime. O mesmo valia para as cirurgias de troca de sexo. Ao assumir a nova identidade, aos 27 anos, perdi todo o meu histórico escolar, me tornei um cidadão analfabeto para a sociedade. Trabalhei em mais de 20 profissões. Fui pintor, taxista, ajudante de obras, construí quatro casas e, por não ter tido carteira assinada, não tenho direito à aposentadoria. Sobrevivo com a venda dos livros", afirma Nery, apontando para a estante e o piso que ele mesmo instalou na casa onde mora, no Bairro de Fátima, Niterói.


Com base em "Erro de Pessoa", Gloria escreveu um seriado chamado "Corpo & Alma" e apresentou ao Boni. O diretor de televisão engavetou o projeto, por acreditar que o público ainda não estaria preparado para tal abordagem. O contato entre os dois surgiu, finalmente, em 2015, através de um email com a sinopse da novela. A autora já havia decidido que o personagem trans seria uma pessoa que se entende como mulher, mas nasceu num corpo de homem. Após a consultoria e a recomendação da leitura de "Viagem Solitária", a telenovelista enviou uma mensagem em que dizia: 'Você me ferrou, mudei tudo!'. A partir dali, ela passou a se referir ao livro uma Bíblia para construir a personagem Ivana/Ivan.


"Sempre digo à Glória que ela salvou vidas. Admiro a inteligência de conquistar o público ao mostrar o lado humanitário do personagem. A Ivana se revela somente no 100º capítulo, quando todos já estavam interessados em entender o porquê da aversão ao próprio corpo e tantas outras crises enfrentadas pelas pessoas trans. Também foi muito acertada a ideia de mostrar os pais que vivem luto pela suposta perda do filho somente em virtude da mudança de identidade. É preferível um filho infeliz do sexo com o qual nasceu ou aquele que altera e torna-se feliz consigo mesmo?", questiona. Nery fala mais sobre as conversas com Gloria Perez para elaborar Ivana/Ivan em "Vidas Trans: A Coragem de Existir", lançado este ano em parceria com Amara Moira, Márcia Rocha e Tarso Brant.


Para João, abordar a transexualidade em rede nacional facilitou a compreensão do tema pelos familiares e tem colaborado para que o dia a dia das pessoas trans se torne menos constrangedor.


"Tenho recebido muitos relatos sobre parentes que têm entendido o que é o nosso universo. O homem trans não é uma mulher lésbica em uma fase de dúvidas. Uma das que atendo contou que estava no aeroporto e apresentou o documento de identificação - ainda com nome masculino -, mas aparentando características do gênero feminino, o que causou estranhamento à atendente. Ela explicou que era como a Ivana da novela, e a moça rapidamente entendeu e prestou o serviço sem problemas. A personagem virou até apelido", destaca. 





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