O dia em que o samba se uniu ao funk para o título inédito

Enviado por: Sergio Soares

Por Sérgio Soares, Ari Lopes, Rennan Rebello e Laryssa Moura


Que a bateria é o ‘coração’ de uma escola de samba, a impulsioná-la a um grande desfile, através do rítimo, todo mundo sabe. Mas na história do Carnaval, há nomes que ficam marcados para sempre por terem acrescentado ousadas inovações que deram certo. E na Viradouro campeã de 1997, esse personagem chama-se Jorge de Oliveira, ou melhor, ‘Mestre Jorjão, que uniu o funk à batucada na emocionante apresentação que levantou as arquibancadas no dia 10 de fevereiro daquele ano.


A inovação promovida por Jorjão no comando de 285 ritmistas marcou época e fez as baterias da chamada ‘elite’ inovarem e tentarem o mesmo efeito nos anos posteriores. “Se não tivesse dado certo, entraria para a história por não termos ganho o título. Mas Deus me reservou essa alegria. que levarei por toda a minha vida”, afirmou, emocionado, na visita que fez a escola de Niterói, no mês passado, em meio as comemorações pelos 20 anos do título.


Mas o que poucos sabem é que ele teve que travar uma autêntica ‘queda de braço’ com o alto escalão da escola, que não via com bos olhos a inclusão do funk sempre quando a escola cantava a repetição do refrão principal. “Quando o samba escolhido para o enredo foi gravado para compor o CD das escolas do Grupo Especial, um maestro foi consultado e aprovou”, recordou.


Jorjão lembra que mesmo assim. não teve vida fácil. “Após os ensaios técnicos, sempre vinha um recado para não fazer, mas eu insistia”, declarou. Na noite do desfile, na segunda-feira de Carnaval, o presidente Luiz Henrique Bessil, a mando do ‘patrono’ da escola, José Carlos Monassa, colocou dois seguranças na bateria, mas Jorjão os intimidou de forma inusitada.


“Disse a eles que estava com o diabo no corpo e que me deixassem fazer o meu trabalho”, relembrou. E assim foi feito. “Quando a bateria começou a fazer a paradinha, ainda no primeiro setor da Marquês de Sapucaí, a resposta do público foi imediata. Eles aplaudiam de pé”, recordou.

O mestre,que hoje tem 62 anos, teve outra participação no desfile de 98, quando a Viradouro foi a quinta e o Carnaval teve duas campeãs: a Mangueira, com tema sobre Chico Buarque, a Beija Flor, que falou dos caruanas. A última passagem de Jorjão pela Viradouro ocorreu em de 2010.


Ao longo da carreira, o mestre também comandou as baterias da Santa Cruz e Imperatriz Leopoldinense e da Mocidade Independente de Padre Miguel, sua grande ‘paixão’ depois da Viradouro, como ele mesmo define. “Meu pai me levava para a quadra da Mocidade no colo, quando eu tinha seis anos Nem era uma quadra, não é? Era uma casa, uma residência que fazia samba. Minha história com a Mocidade é muito grande, é a minha escola do coração. Presenciei muita coisa em Padre Miguel. Desfilei em ala coreografada e até empurrei carro alegórico”, enfatizou.


Ritmistas mais antigos exaltam qualidade em 97

Um grande desfile não se esquece jamais, ainda mais quando ele foi determinante para o único título da escola no Grupo Especial, em 70 anos existência. Dalmir Ferreira de Souza, de 73 anos, Adilton Reis, o ‘Russo’, de 63, e Adão Fernandes, de 78, tem, além da antiga amizade, uma coisa em comum: a paixão pela Viradouro e o trabalho na bateria da escola, onde tem o cargo de ‘presidentes’ por serem os mais antigos.


Cada um deles, tem mais de 50 anos dedicados á vermelha e branca e se dizem orgulhosos com o título. “Ao longo de toda a história, a bateria da sempre teve grandes ritmistas. A qualidade aqui é permanente”, exalta Dalmir, que tocou repique no desfile de 1997. Já Adão, que se exibiu com um tamborim, naquele ano, revela que a união e a dedicação foram fundamentais para o bom resultado.


“Não queriam o funk, mas ajudamos o Jorjão, adepto da ideia, em todos os momentos, com muitos ensaios”, recordou Adilton Reis, que tocou caixa em 1997. Atualmente, os ‘presidentes’, além de tocarem, são responsáveis pela coordenação do trabalho de afinação de todos os instrumentos antes das exibições.

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